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Tem gente ferindo a rocha

 
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Há ensinamentos na Bíblia que se encaixam com exatidão ao contexto do  mundo religioso atual e que parecem ter sido escritos visando a esta época e não a cinco ou seis mil anos atrás.  Um  desses ensinamentos atualíssimos é o episódio que encerra a carreira espiritual  de Moisés, o líder hebraico que libertou Israel do Egito e conduziu o povo pelo deserto até o limiar da Terra Prometida. O sobrenatural de Deus envolve de maneira tão positiva  a vida  desse grande legislador,  que nos concentramos nas maravilhas que Deus realizou através da sua instrumentalidade  e nos esquecemos do entorno sombrio que determinou a sua proibição de entrar na  terra.
 Essa parte da história  é  dura de engolir. Engasgamos  nela porque a relacionamos com o caráter manso de Moisés e nos sentimos desolados com o rumo inesperado dos acontecimentos, bem no final  da epopéia desbravadora, a dois palitos  da linha de chegada.   Se todos os cristãos fossem brasileiros, seria fácil propor uma pálida parábola para descrever o sentimento: bastaria lembrá-los do que sucedeu com o maratonista Vanderley Cordeiro de Lima, nas Olímpiadas de Athenas, no ano de 2.004.   Ele corria bem, mas a despeito do quanto corria e do quão preparado estava, ao chegar à linha de chegada, levou o bronze. Ou ainda  de Airton Senna que também corria bem, mas recebeu a bandeirada  da eternidade antes de cruzar a linha de chegada,  em  Ímola.
 O sentimento é esse: a duras penas aceitamos que grandes campeões possam tornar-se impotentes e meramente humanos.  Nosso ufanismo patriótico ou cristão pediria Vanderlei com a medalha de ouro no peito, pediria  Airton Senna no pódio, com a taça, e pediria Moisés adentrando a Terra Prometida. Parece-nos injusto que nenhum deles tenha arrebatado o troféu que lhes pertencia por esforço e mérito pessoal.
 Aprendemos em todos esses acontecimentos que o imponderável acontece na agenda da terra. Mas o que aprendemos com o patriarca  Moisés é um ensinamento dos mais contextuais dentro da história do cristianismo atual.
Há na Bíblia duas referências distintas em relação a Moisés e a água da Rocha: Êxodo 17 e Números 20. Tanto em Êxodo, quando em Números, a queixa e a murmuração do povo vieram contra Moisés, por falta de água. Afinal, Moisés era o líder. Tanto em Êxodo, quanto em Números, Moisés clamou a Deus e Deus respondeu fazendo  jorrar  água da rocha.   Em Êxodo, Deus ordenou a Moisés que passasse  adiante do povo, tomasse consigo alguns dos anciãos de Israel, levasse  a vara da autoridade investida ,  e ferisse a rocha.  Em Números, a queixa é a mesma, o povo é o mesmo, os elementos sobrenaturais são os mesmos, tanto Deus quanto a vara estão ali, contudo, a paisagem aparece modificada pela presença maciça do povo de Israel no cenário do milagre.
 Se em Horebe,  é-lhe ordenado que ferisse a rocha na presença dos anciãos de Israel,   em Meribá, ele poderia fazer o seu milagre na presença de todo o povo, desde que  falasse à rocha. Havia uma diferença: falar- e não ferir.  A rocha que fora ferida em Horebe era um tipo de Cristo.  Cristo, que já fora ferido em Horebe, não poderia mais sê-lo em Meribá porque Cristo não pode ser ferido duas vezes. Essa é a revelação espiritual que recebemos aqui.
 O que aconteceu em Números 20  todo cristão  sabe: Em um espetáculo demonstrativo de ira humana  Moisés  feriu de novo  a Rocha,  a qual representava Cristo e era um tipo de Cristo.  Em vez de falar à rocha, como lhe fora ordenado,  Moisés bateu na rocha.  A aparentemente sutil desobediência revelou-se um grave ato de rebeldia e  impediu a sua entrada na terra.   Morto Moisés, coube a Josué ocupar o seu lugar e conduzir o povo a Canaã.  Moisés não entrou em Canaã.
A inferência é clara como o sol do meio dia: Moisés, que  estava investido da autoridade de Deus, representou mal o caráter de Deus, diante do povo de Deus. Se no primeiro episódio em Horebe, Deus precisava que Moisés ferisse a Rocha, no segundo, em Meribá, Deus precisava  que Moisés apenas falasse à rocha. Falar à rocha, bastaria para produzir o mesmo efeito  obtido em Horebe, quando Deus ordenou que a rocha fosse ferida. Surpreendentemente, contrariando a orientação de Deus e ferindo a rocha,  o resultado foi o mesmo: a água jorrou.
  Foi no deserto que  Deus realizou os maiores atos sobrenaturais da história. Mas os atos sobrenaturais de Deus não significam que Deus esteja aprovando a conduta do povo. Foi nesse mesmo  deserto que aqueles que presenciaram os atos sobrenaturais de Deus morreram sem entrar na Terra Prometida. Toda aquela geração que  viu Deus, através dos seus atos, não foi aprovada por Deus.
 Embora Moisés tenha desobedecido a Deus, Deus não se contradiz: ele falou que faria e ele fez o que falou que faria.  Deus honrou Moisés e fez a água brotar, fluir, deslizar pela garganta e matar a sede do povo. Deus poderia ter impedido o milagre, mas não impediu. E por que não impediu? Porque Deus tem compromisso com a sua Palavra. Deus disse que faria a água jorrar e fez a água jorrar. Contudo, embora Moisés tenha obtido o resultado esperado, ele não agradou a Deus e até mesmo despertou a ira de Deus.   
Vemos nesse episódio, que o trabalho de Deus não admite empirismo técnico ou recursos cênicos. Quando um homem está representando Deus, tal homem precisa saber que Deus não deixa espaço para a vontade humana manifestar-se nem para exaltar o seu próprio nome. As exigências de Deus para aqueles que o representam diante do povo são extremamente restritivas. Para Deus não é a mesma coisa, um gesto ou uma palavra. Não é a mesma coisa, um grito ou uma voz gentil. Não é a mesma coisa o sacrifício ou a  obediência. Não é a mesma coisa falar à rocha, ou ferir à rocha.  
Não é suficiente ser  um canal por onde flui a Palavra de Deus. É preciso manifestar o seu caráter.   Moisés feriu a rocha por irritabilidade e exibicionismo. Havia  gente demais no entorno, assistindo o milagre.  Moisés cruzou a tênue linha que separa a obra de Deus e a obra dos homens. A obra de Deus traz glória para Deus, mas a obra do homem traz glória para o homem e provoca a ira de Deus.  Por razões espirituais,  Moisés caiu na contra mão.  Dura coisa é cair nas mãos do Deus vivo.
Tem gente ferindo a rocha em nossos dias com muito mais freqüência do que Moisés. Tem gente ferindo a rocha repetidamente, sequencialmente, rotineiramente. Tem gente ferindo a rocha onde tem água, ou seja, sem necessidade.  Tem gente ferindo a rocha para atrair multidões com sede e sem sede. Tem gente fazendo da rocha o seu marketing particular, o seu cartão de visita com telefone celular. Tem gente usando o nome de Deus e a Palavra de Deus para engordar a cobiça dos homens. Tem gente usando o nome de Deus e a Palavra de Deus para operar demonstrações de poder que mais nos lembram os  magos do Egito do que os discípulos de Cristo.  Quer um dente de ouro? Ou prefere emagrecer em 5 minutos? Quer ver  revelado seu passado ou predito o seu futuro? Ligue para o celular x e faça um depósito na conta bancária y.  Depois de tudo agendado, junte-se o povo em Horebe. Coloque um carro de som na rua. O  espetáculo vai começar!    
Os Moisés de hoje ferem a rocha sem a comissão divina,  mas usam a Palavra de Deus.  Com a Bíblia na mão, eles invocam o Deus da Bíblia e os milagres acontecem. Contudo, os atos sobrenaturais de Deus não significam que Deus está aprovando a conduta do povo. Os atos sobrenaturais de Deus não significam que Deus conhece esses milagreiros. Conforme está escrito: “Muitos me dirão naquele dia:  Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi abertamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim vós os que praticais a iniqüidade.” (Mateus 7:22-23).
Há uma espécie de  atos sobrenaturais aos quais Deus chama de práticas iníquas. Há uma espécie de sinais e maravilhas que não preenchem os requisitos necessários para serem aprovados por Deus. Eu creio que a característica de um ato sobrenatural que provém da aprovação de Deus  reside nisto: Deus não deve ser chamado a fazer o que o homem pode fazer e  Deus não deve ser chamado a operar o que não nos  é necessário que ele opere.  
Jesus mandou tirar a pedra para ressuscitar a Lázaro. O que o homem poderia fazer, Jesus não pediu a Deus que o fizesse. Você quer obter essa coisa cafona que é um dente de ouro? Peça ao seu dentista. Você quer emagrecer? Feche a boca, faça exercícios e procure um endocrinologista. Você quer engordar a conta bancária? Trabalhe e faça as suas necessidades conhecidas diante de Deus. Tanto Moisés quanto aquela geração que presenciaram os milagres de Deus, não foram aprovados por Deus e, por causa disso, jamais entraram na terra.
 Não foi por falta de caminhada. Não foi por falta de milagres. Não foi por falta de ajuntamento religioso. Não foi por falta de líderes.  Não foi por falta de cerimoniais. Não foi por falta de leis. Não foi por falta de seguidores. Não foi por falta de nuvem. Não foi por falta de fogo. Não foi por falta de ouro. Não foi por falta de carne. Talvez tenha sido por excesso.


       
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