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Considerações sobre as aflições

 
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Quantas são as aflições que passamos nesta vida? Qual a importância dos  acontecimentos aflitivos na transformação dos  seres espirituais? Acostumamo-nos a contar as coisas boas e ruins que nos acontecem e até podemos manter um registro histórico dessas datas,  mas não conseguimos avaliar adequadamente o valor positivo das aflições e angústias  que sofremos  no decorrer da vida. Podemos nos lembrar, aqui e ali, das mortificações  de maior vulto, daquelas que verdadeiramente nos fizeram sofrer em demasia, contudo, pouco conseguimos perceber o quanto fomos transformados pelas pequenas aflições. A verdade é que a vida neste mundo é uma aflição atrás da outra, em todos os níveis, e todas elas são permitidas  sob medida,  para que a nossa envergadura emocional possa suportar e se fortalecer. Eu me lembro disso na manhã deste dia porque estou meditando no versículo-frase que Jesus disse e João registrou em seu Evangelho: “ no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”( João 33:16 parte b).
Quantas são as aflições que passamos neste mundo?  Sobre isso eu quero lhe fazer pensar. Hoje vou caminhar no contra senso do bom senso o qual   ensina que você só deva pensar em coisas boas, em coisas que lhe causem deleite e lhe proporcionem  bem estar. Outra balela que nos fizeram aceitar como sendo verdadeira. Não é!  Nós podemos e devemos pensar em  nossas aflições como sendo as matérias que nos foram ministradas na universidade da vida. Ninguém passa incólume por qualquer tipo de aflição.  Ignorar as aflições que passamos é como matricular-se numa escola e conscientemente esquecer o que se aprendeu na vida acadêmica. O estudante que não realimenta o seu conhecimento, acaba verdadeiramente por não se utilizar dele. Se você graduou-se em línguas estrangeiras mas passa o tempo todo falando em português, pensando em português, escrevendo em português, dentro de pouco tempo nada mais restará do seu inglês, do seu francês, do seu espanhol. Assim ocorre com aquele que sofre e esquece. Assim ocorre com todos aqueles que apagam da mente as aflições e vivem como se tivessem  o direito de pensar que a vida aqui é um paraíso. Não é!  No mundo,  temos e teremos aflições . É parte do aprendizado. É parte da técnica. É  parte do jogo. É parte da vida.
O salmista sentiu isso  e registrou no Salmo de número 119, verso 67: “antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a sua Palavra.”  Olha que frase didática! Por ela o salmista reconhece que a aflição teve nele um caráter essencialmente benigno que o fez guardar a Palavra de Deus. E não é verdadeiramente assim que acontece? Quantos soberbos se tornam humildes depois de passar por uma boa aflição? Quantos sovinas se tornam generosos depois de provar do próprio veneno? Quantos impassíveis  se tornam sensíveis depois de experimentar uma grande dor? Quantos depravados se tornam santos depois de cair no limbo da própria depravação? Quantos moralistas se tornam compassivos depois de provar da sua condição pecaminosa?  Quantos religiosos se tornam crentes depois de experimentar a miséria da condição religiosa? 
 A verdade é que se não fosse a escola da aflição o mundo aqui seria a ante-sala do inferno. Se temos algum tipo de humanidade e de bondade sendo exercida na terra é porque a escola da aflição diplomou alguns homens e mulheres de Deus e os fez alistados  no exército do bem. Não há outro tipo de alistamento a não ser pela aflição. Ninguém consegue evoluir espiritualmente sem conhecer o sofrimento. O sofrimento é o caminho por excelência para nos tornar mais semelhantes a Cristo. Até Jesus, enquanto homem,  passou pela escola da cruz. Como Deus, ele não precisava de sofrimento, mas como homem, Ele tomou o cálice até as últimas conseqüências que culminaram em  sua morte de cruz.
 Mas nem todo tipo de aflição precisa passar pelo Calvário para nos levar ao céu. Afinal se fosse assim, estaríamos anulando o sacrifício de Cristo. Não há nenhuma necessidade disso. Cristo morreu por nós e hoje a morte não tem mais poder sobre aquele que crê no sacrifício expiatório que Cristo realizou em favor dos homens. Nem toda aflição precisa ter esse ranço de morte, esse peso de cruz, essa dimensão ontológica de calvário. Na verdade, as pequenas e contínuas aflições são tão eficientes quanto as grandes aflições. A única diferença é que as pequenas aflições demoram mais tempo para realizar a transformação do homem enquanto as grandes aflições o fazem transformado em um tempo mais curto. Ninguém precisa aguardar uma hecatombe apocalíptica sobre a sua  cabeça para ser gradativamente transformado em homem espiritual, mas todos devemos e podemos guardar uma expectativa positiva sobre as miudezas aflitivas que nos sobrevêm.
 Nesse momento, eu me lembro de três coisas: uma mudança radical aos 4 anos de idade, um brinquedo que desejei e nunca recebi, um cachorro que se chamava Mosquito e arrancaram  de mim como se eu e ele não nos pertencêssemos para toda a eternidade.  Três fatos que ocorreram na primeira infância e que me foram profundamente aflitivos. Embora essas ocorrências pareçam miúdas diante das tragédias que assolam o mundo, seus significados transformaram a minha visão cosmogênica. Aprendi muito cedo que aqui não é o céu. Aqui há mudanças, frustrações e separações. Aqui há opressões. Aqui há imposições. Aqui há tirania e abuso de poder.  Mais tarde, bem mais tarde, esses conceitos me foram necessários para suportar realidades  mais dolorosas. Mas quem pode dizer que para isso não fui preparada? Afinal, não morri. Sobrevivi às minhas aflições pessoais e prossigo para o prêmio da vida eterna que Deus nos prometeu em Cristo Jesus, onde não haverá mais dor, nem morte, nem apropriação indébita de sentimentos e de valores.
Perder de vista que o mundo é um lugar de aflição é como comprar um apartamento de cobertura e descobrir depois que o prédio está condenado por um cálculo estrutural. O mundo é um lugar de aflição. E quem disse que não seria? Jesus não disse. Jesus disse que no mundo nós teríamos aflições. Mas em seguida, ele disse algo ainda muito encorajador: ele disse que conservássemos  o  bom ânimo porque Ele vencera o mundo. E como Jesus venceu o mundo? Suportando pequenas e grandes aflições. Padecendo  com bom ânimo. Enfrentando a dor. Fugindo da honra dos homens. Rejeitando a glória do mundo e encarando o opróbrio da cruz. 
 A aflição não é algo opcional, é imperativo. Mas a maneira como vivenciamos a aflição é fundamental para a nossa evolução espiritual.
 Aproveite todas as suas aflições. Tire bom proveito das pequenas e das grandes aflições. Não é rapadura, nem é doce, não é mole nem é gostosa, mas assim como os pães têm a riqueza do trigo,  e a morte tem a riqueza da ressurreição, as aflições têm  a riqueza da cruz e nos preparam para viver eternamente com Deus.  
 


       
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