Eu confesso que tenho certa dificuldade com alguns livros da Bíblia. A história de Jonas, por exemplo. Como me custa crer que Deus enviou Jonas a Nínive e que Jonas recusou-se a ir, e que por causa dessa recusa teria ido parar diretamente no ventre do grande peixe onde ficou três dias e três noites, até ser vomitado em terra firme. Custa-me acreditar literalmente na existência de um homem que após ser vomitado pelo peixe, saiu limpando a roupa e tomou o caminho que Deus lhe exigia. Custa-me acreditar porque isso contraria uma das grandes características da essência do homem que é exatamente a capacidade de exercer o livre arbítrio que lhe foi dado por Deus. Custa-me acreditar porque não há relato histórico de nada parecido com o que aconteceu com Jonas após ser tragado pelo grande peixe: nenhuma sequela, nem mesmo emocional. Custa-me acreditar porque “Deus é quem realiza em nós o querer e o efetuar, segundo a sua boa vontade” conforme está escrito em Filipenses 2:13. Custa-me acreditar porque com base nesse versículo de Filipenses, para que Jonas desejasse ir a Nínive bastaria Deus realizar nele o seu querer, e o efetuar seria conseqüência direta desse querer. Custa-me acreditar, mas ainda assim eu creio. Eu creio com a minha capacidade de calar toda a argumentação, todo o raciocínio que se levanta contra o conhecimento de Deus e de sua Palavra. Eu creio com a minha vontade de crer. Eu creio com a minha fé que leva cativa todo pensamento à obediência de Cristo.
Não acredito que a minha dificuldade com certas passagens bíblicas possa ser considerada uma ofensa a Deus. Deus sabia que teríamos essas ingerências cerebrais e nos exortou a não considerá-las relevantes quando mandou registrar em Deuteronômio 29:29: “ as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus; porém as reveladas pertencem a nós e a nossos filhos, para sempre.” Jonas é, pois, um mistério que faz parte das coisas encobertas, mas Jesus tratou Jonas e sua experiência no ventre do peixe como um fato histórico. Jesus não perdeu tempo questionando a existência de Jonas ou nos informando a sua versão sobre os fatos. Resta-nos, pois imitar a fé de Jesus. E é com essa fé que conseguimos enxergar Jonas como um sujeito comum que provocou uma indigestão no grande peixe a ponto deste ter que vomitá-lo. Jonas era um osso duro de roer, e peixes não roem ossos.
Deus mandou Jonas para Nínive, mas Jonas não considerou que o povo de Nínive fosse digno de receber uma pregação profética e tomou um navio para Tarsis. Jonas representa o povo judeu que pensava ter exclusividade na salvação. O povo de Nínive é um tipo do mundo sem Deus. Na verdade, nós tomamos de empréstimo o Deus de Israel quando o declaramos nosso Deus. Devem existir ainda muitos “Jonas” que não nos vêem com bons olhos. Há um programa na televisão brasileira, de conteúdo judaico messiânico, que admite Jesus como o Messias que já veio, e que virá segunda vez, mas que não nos reconhece como parte do povo de Deus. Para esses nós somos os ninivitas de hoje. O grande peixe representa a Babilônia religiosa e os três dias, o cativeiro dos judeus em Babilônia.
Os milagres relatados no livro de Jonas apontam todos para a graça que há em Cristo: o acalmar da tempestade antes que a tripulação do navio fosse destruída; a provisão do grande peixe e a preservação intacta de Jonas na sua barriga; a expulsão em terra firme e não em alto mar; a planta que Deus fez crescer da noite para o dia; o verme que comeu a planta; o vento oriental; a salvação dos ninivitas. Em Jonas Deus usou como símbolos proféticos, recursos sobrenaturais que se encaixam na categoria de milagres, mas também usou recursos naturais quase poéticos: a planta, o verme, o vento. Na verdade, o Livro de Jonas quer mostrar que Deus se preocupa com todo o mundo. Deus não faz acepção de pessoas como nós fazemos. Deus escolhe um homem e o desafia a vencer os seus preconceitos. É melhor não ter conceitos do que ter pré-conceitos. O pré-conceito é que impede o milagre que Deus quer realizar. O pré-conceito anula o caminho da graça de Deus em Cristo. Jonas era terrivelmente preconceituoso como qualquer religioso do nosso tempo. A religião cria dogmas e se assenta sobre os dogmas que criou. O cristianismo não se fundamenta em dogmas, mas na pessoa de Cristo. Cristo e o cristianismo se confundem a tal ponto que os dois são um.
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