Efeito placebo é a resposta que o organismo apresenta diante da administração de um remédio cujo ingrediente é apenas açúcar. Ou farinha de trigo. Não há nenhum componente farmacológico que justifique a melhora, mas a pessoa que ingere o medicamento não sabe disso e acredita estar tomando um remédio feito sob medida para os seus males. O resultado é a melhora dos sintomas e até a cura da doença. O efeito placebo é poderoso e tem sido estudado pela ciência numa tentativa de desvendar os mistérios da mente humana sobre a saúde do corpo.
Eu confesso a vocês que tenho muito medo de ser iludida - de novo- pelo efeito placebo, ainda que ele me seja benéfico. Eu confesso a vocês que não gostaria de estar incluída na lista dos pacientes que recebem uma pílula de açúcar, mesmo que ela fosse a solução mágica para todos os meus problemas. Eu confesso a vocês que não sou a paciente adequada para esse tipo de tratamento. Porque me sinto enganada ainda que não tenha gastado um centavo sequer. Eu pioro muitíssimo quando o efeito placebo vem à tona. Porque me sinto burra de ter acreditado numa panacéia, num circo que foi montado para enganar os incautos.
Ocorre que o efeito placebo pode acontecer com qualquer um. Ricos ou pobres, sábios ou ignorantes, gente que nem sabe que ele existe e gente que sabe perfeitamente que ele existe. Como eu. Clientes do serviço público de saúde ou de clínicas privatizadas. Ouso dizer que aqueles que mais se propõem a gastar num tratamento de saúde podem ser ainda mais receptivos ao efeito placebo. Porque o efeito placebo é potencializado quando se paga caro. Somos levados a pensar que se um remédio é caro, é bom. Se vier da América que fica em cima de nós então, é ainda melhor. Da Europa, nem se fala. E dessa maneira, quanto mais caro for um remédio, mais efeito placebo ele contém embutido no seu efeito original.
Não faz muito tempo eu estive sob um efeito placebo que me tomou algum dinheiro. Um poderoso marketing associado à imagem de um energético, acompanhada de muitos depoimentos igualmente milagrosos induziu-me a pensar que toda vez que eu consumia uma pequena dose da bebida estaria recebendo todos os nutrientes que o meu corpo necessitava para funcionar adequadamente. Nessa indução, o meu corpo respondeu positivamente, o meu humor melhorou, a minha disposição aumentou. A panacéia teve sobre mim um efeito altamente positivo que só desmoronou quando uma campanha a nível nacional promoveu uma investigação séria que trouxe ao conhecimento público as propriedades da fruta que deu origem ao suco. Uma fruta rica em antioxidantes e mais nada. Deixei de tomar o suco milagroso e prometi a mim mesma que, dali para frente, exerceria uma severa vigilância sobre a minha resposta emocional. Mas o engano foi didático porque aprendi a desconfiar. Hoje sou desconfiada.
Na verdade, ninguém está livre do efeito placebo. O efeito placebo tem uma gama de atuação tão poderosa que pode demorar algum tempo para cair a nossa ficha. Porque o efeito placebo conta sempre com um marketing intensivo que é capaz de fazer formadores de opinião sem custo algum. É a famosa propaganda boca a boca. O sujeito se sente melhor e conta para o outro. O outro experimenta, se sente melhor e conta para o outro. Cada adepto ganha um novo adepto que ganha um novo adepto. E a pirâmide vai se formando. No topo estão os espertalhões colhendo os frutos do investimento inicial. Dali para frente a coisa só cresce.
Os medicamentos ou alimentos funcionais cujos efeitos não estão ligados a uma ação farmacológica beneficiam-se do fato de que não há punição adequada para o seu fabricante até porque não há como mensurar se algo é nocivo quando o resultado é acompanhado por ensaios clínicos controlados que demonstram resultados altamente positivos. Contra os fatos não há argumentos. Se um placebo provoca mudanças benéficas nos pacientes, e é útil na prática clínica, ele pode até ser permitido pela ética médica. Até porque segundo pesquisas, toda medicação administrada além do seu efeito farmacológico, tem também um efeito placebo.
Durma-se, pois, com um barulho desses: se você for crédulo demais, ficará bom à custa do efeito placebo. E se for desconfiado demais, nunca ficará bom com nada. Porque é o cérebro quem comanda grande parte das respostas de saúde e bem estar do seu corpo. Escolha, pois, entre ser burro e saudável ou ser inteligente e poli queixoso. Eu acho que prefiro uma terceira opção. Bom seria se ela existisse sem estar vinculada às duas proposições iniciais. Mas não existe. O efeito placebo está em tudo. Até nos chás que a sua avó tomava, que a sua mãe toma, e que, um dia, você acabará tomando. Do efeito placebo ninguém escapa.
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