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Amor elaborado

 
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Fazer pão aos domingos não é normal. Porque não sou padeira de profissão. Faço meu pão por hábito, por costume, por entender que o pão integral é parte de um ritual quase sagrado. Mas não costumava fazê-lo aos domingos. Fazer o pão aos domingos é uma atividade que surgiu em minha vida para preencher as longas horas do dia de domingo. Unindo o útil ao agradável, fazer o pão os domingos é também economizar algumas horas da segunda feira. 
 Quando faço o  pão os domingos, o silêncio da tarde faz barulho dentro da minha cabeça. Lembro-me de um tempo que já não volta mais. E se voltasse, não me encontraria fazendo pão aos domingos porque esta é uma atividade extremamente solitária. Não combina com a casa cheia. Hoje, com a casa vazia, faço pão os domingos.
Enquanto coloco 3 ovos na bacia, penso que o ovo é uma das maiores delicadezas do universo. Por isso homem algum conseguiu fabricar um ovo de galinha. Alguém já viu um ovo de galinha, de pata, ou de passarinho,  produzido pela indústria alimentícia? Só o ovo de chocolate. Não há indústria que possa dispensar a função da natureza na produção de um ovo.   O ovo é delicado porque contém a vida. A vida é um ovo. Movemo-nos dentro do nosso pequeno mundo como o pintainho se move dentro da casca do ovo. Às vezes, o nosso mundo fica abafadinho, escuro, sem espaço. Nessas horas podemos quebrar a casca para descobrir  uma circunscrição ovariana mais alargada. Um outro ovo maior dentro do pequeno ovo menor.
A vida é sempre um ovo, eu penso.   Enquanto penso na metáfora que criei, quebro os ovos. E de repente, um ovo já não é mais um ovo. É um mexido de ovos: um ovo se mistura a outro ovo, as claras se misturam às gemas, e temos aí uma gemada amarela espessa, densa, compacta, encorpada, pedindo 1 xícara de  açúcar.  Açúcar mascavo. Porque o açúcar mascavo é mais puro, mais natural, e vem diretamente do melado da cana. E como uma coisa puxa a outra, o melado de cana merece uma xícara de germem de trigo. Para quem não sabe, o germem de trigo é a parte mais nobre do trigo. A sua família merece um pão que contenha a parte mais nobre do trigo. Eu faço pão com água porque tenho alergia à lactose. Quando coloco as 3 xícaras de água, sempre mornas, o fermento já foi acrescentado à massa. Aí só faltam as farinhas: de trigo integral, de aveia, de centeio. Farinhas nobres. Farinhas do tempo das cavernas. Para sovar dedico à massa toda a minha energia. Amasso, amasso, amasso, amasso. Aprendi que quanto menos farinha colocar na massa, mais macio ficará o pão.
Sempre oro pedindo a Deus que abençoe o pão que as minhas mãos produzirem. Que seja um pão sem ranço de amargura. Que seja um pão honesto. Que seja um pão incontaminado. Que seja um pão de bons propósitos. Que seja um pão leal. Que seja um pão íntegro. Porque a integridade do pão não está apenas na função de matar a fome,  mas na vocação para transformar o mundo que precisa tanto de trigo quanto de pão. O trigo é  amor em forma bruta, o pão é  amor  elaborado.
Eu fico profundamente triste quando as coisas e as pessoas perdem o foco da vocação para a qual foram chamadas. Eu fico profundamente triste quando acontece o que eu chamo de banalização do sagrado. Quando o pão de cada dia fica esquecido no armário até virar pão seco. Quando um ovo de chocolate merece maior contemplação do que o ovo da galinha.  Quando o galo vira coc-au-vin e a galinha vira cabidela. Quando o sangue de touros, de bodes e de animais é derramado a troco de nada.  Quando a vida perde a dimensão da eternidade e ganha os contornos do mapa mundi. Quando o falso e o verdadeiro se misturam e se confundem.Quando o amor é trigo em forma bruta. Um amor assim pode matar a fome,  mas não transforma o mundo. O mundo precisa de um amor elaborado. Cristo é a excelência do amor elaborado. Cristo é o grão de trigo que caindo na terra virou pão.  
“Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só. Mas se morrer, produz muito fruto.” João 12:24


       
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