Depois de uma temporada de calor intenso, a terça feira de carnaval amanheceu chuvosa. Uma chuva tranqüila sem ameaça de temporais, sem a eminência assustadora de trovões, sem o prenúncio de raios. Uma chuva com o gosto de antigos tempos. Tempos de quietação. Quando o homem e o mundo estavam reconciliados com o seu Criador. Quando a natureza sugeria estar agradecida e havia uma abundância de paz em cada gota que caia do céu. Quando o labor humano se resumia a dar nome a todos os seres criados. Tenho saudades desse tempo imemorial que a minha Bíblia relata. Tenho saudades da Árvore da Vida no centro do Jardim. Tenho saudades do tempo em que Deus descia para falar com o homem na viração do dia. Tenho saudades do paraíso.
Nesta terça feira de carnaval, os cachorros, os gatos, e até os passarinhos parecem confortados pelo clima ameno. As plantas mataram a sede e o a terra foi saciada. A raça humana poderia usufruir dessa paz recitando louvores ao Senhor: “ Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele.” Salmos 118:24.
No entanto, o que se ouve em uníssono é a humanidade equivocada, consumida, ensandecida, recitando o enredo de alguma escola de samba. Ou o hino da melhor cerveja do Brasil. O que se vê na televisão é uma multidão que faz qualquer coisa por um segundo de fama. Um bando de mulheres debilitadas por um regime severo à base de proteína. Dois meses comendo clara de ovo no café da manhã, no almoço, e no jantar, produz espécimes do tipo chester com muita coxa, muito peito, e pouco cérebro. Um povo desgastado, acabado, sem esperança, sem paz, sem o conhecimento da Verdade, entrega-se para o carnaval como se fosse a melhor coisa do mundo. Não é. É ilusão, é utopia, é vaidade, é fantasia. Tudo acaba na quarta feira. Na quarta feira é hora de contabilizar os prejuízos contra o corpo, contra a alma e contra o espírito.
Todos os dias foram feitos pelo Senhor. Todos os dias são um presente de Deus para a humanidade. Deveríamos ser capazes de vislumbrar no dia motivos para nos alegrarmos e nos regozijarmos. Com ou sem carnaval. A chuva que desce tranqüila, as forças cósmicas interagindo em perfeita harmonia, o sol que paira acima das nuvens, o arco íris na linha do horizonte, a rotina intermitente das horas, são bons motivos para nos alegrarmos e nos regozijarmos em Deus. Foi assim que os salmistas da Bíblia compuseram as suas orações. Em meio ao silêncio, à contemplação, ao descanso, à observação. Os salmistas compuseram os seus salmos num dia de silêncio. Muito provavelmente num feriado religioso, ou num domingo longe da agitação do trabalho. Os salmistas compuseram os seus salmos quando exercitaram a sensibilidade criativa e deixaram que o coração falasse mais alto. Não teríamos os salmos se eles tivessem aproveitado o feriado para ir pescar. Não teríamos os salmos se eles tivessem gastado o dia de folga viajando para Búzios. Ou para Balneário Camboriu. Ou para o Sambódromo no Rio de Janeiro. Não teríamos os salmos se eles gastassem o tempo fazendo churrasco e tomando a cerveja que desce quadrado ou desce redondo.
Temos os salmos porque no passado alguém fez provisão para o espírito em detrimento da carne. Naquela época já havia carnavais. Carnaval é festa da carne. Quando Moisés subiu ao Monte para fazer provisão para o espírito, o povo de Israel organizou o primeiro carnaval da história da humanidade. Vezes sem conta, a humanidade continua promovendo a festa da carne. Todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, a promoção ganha novos adeptos e nova roupagem. Até mesmo as festas cristãs de hoje oferecem abundante provisão para a festa da carne. Festa da carne é tudo aquilo que glorifica o homem, mesmo que esse homem seja religioso. O homem é carne. Cada vez que um homem religioso é recebido com a honra que é devida somente a Cristo, ele se torna embaixador de mais uma festa da carne.
Nesta terça feira de carnaval o máximo de provisão que ofereci para a minha carne foi arroz com ovo frito na hora do almoço, e bolinho de chuva na hora do café da tarde. Depois do almoço, li a Bíblia e me alimentei com o salmo de número 118. Esse salmo de ação de graças era cantado pelos adoradores que iam em procissão para o templo. Contém uma conclamação ao louvor, uma admissão da angústia, do livramento passado, e uma antevisão do dia futuro em que Cristo, a Pedra fundamental, trará a salvação.
Eu sabia que era carnaval, mas isso não fez nenhuma diferença em minha vida. Uma passagem rápida pelos canais de televisão mostrou um flash do desfile das escolas de samba. Foi o máximo que avistei do carnaval brasileiro. Em compensação, vi muito da fidelidade e da bondade de Deus. Não olhei para os homens, mas para a natureza. Não olhei para o calendário, mas para Cristo. Na verdade, eu gosto muito de carnaval: para orar, meditar, louvar, descansar e comer bolinho de chuva. Bolinho de chuva combina perfeitamente com o meu carnaval.
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