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Aroma idêntico ao natural

 
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Hoje quero falar do aroma idêntico ao natural de manteiga que é adicionado na margarina. Parece manteiga, cheira manteiga, mas não é manteiga. Também quero falar do aroma idêntico ao natural de calabresa que é acrescentado ao tablete de  tempero industrializado. E do aroma idêntico ao natural de galinha que vem embutido no macarrão instantâneo. O mundo  especializou-se de tal forma em fazer parecer que é, - aquilo que não é,- que nós comemos gato por lebre, lambemos os beiços e nem reclamamos da falsificação, algumas delas, grosseiras. Outras, nem tanto. Há um mar de idênticos fazendo-se passar pelo original na indústria alimentícia.  Comemos e cheiramos o que parece ser original, mas é só idêntico. E ainda se escreve assim: “aroma idêntico”. Ninguém engana ninguém. Compra quem quer, usa quem gosta, aprecia quem ainda não parou para pensar na enxurrada de produtos químicos que ingerimos goela adentro, em troca de um aroma ou de um sabor idêntico. Eu poderia gastar esse artigo relacionando uma porção de alimentos que são produzidos com base no aroma e sabor idêntico ao natural, que são falsificados. Mas isso não mudaria muita coisa. Não mudaria a cabeça dos jovens que ainda pensam que são eternos, e que a vida é longa demais para esse tipo de preocupação, e nem mudaria a cabeça dos velhos que pensam que são findáveis em curto prazo para uma mudança de comportamento. Os primeiros julgam-se imortais e os outros se vêem à beira da sepultura. Ambos empanturram-se com corantes, acidulantes e conservantes, sem nenhum tipo de preocupação com a saúde do corpo e o desempenho da máquina. Máquina nova agüenta tudo sem precisar de reparo,  máquina velha entra na fila do SUS ou espera a próxima visita da equipe do Programa Saúde da Família.
O mundo está doente. Só não vê quem não quer. Os nossos jovens estão doentes. Os nossos velhos estão sobrevivendo à custa dos últimos avanços da medicina que se especializou em reparar os danos causados pelo meio ambiente e pelo estilo de vida.  A medicina ocidental é uma medicina essencialmente paliativa e não preventiva. O cidadão adoece e procura o médico que pode lhe oferecer duas coisas: alívio imediato para os seus males com um analgésico e um antibiótico potente, ou uma convivência harmoniosa e pacífica com as suas dores que, se não são curáveis, são infindáveis até a morte amém. Ninguém questiona de onde veio a doença. Não se procura a raiz do problema. Na verdade, ninguém sabe onde está a causa do problema. Se aceita como verdadeiro o seguinte axioma: “tudo o que vive, um dia morre.” Ponto.
Será mesmo? Será que precisamos conviver com esse modelo de saúde tão dependente de analgésicos, de antibióticos e de novas químicas que são lançadas no mercado a cada dia?
A questão toda é de saúde pública. Hipócrates já dizia: “Você é o que você come.” As indústrias alimentícias praticam contra os cidadãos uma política de suicídio em médio prazo que atende prontamente aos anseios da população: comer rápido, de forma a não perder tempo e nem ter muito trabalho. Tudo vem pronto. A massa de tomate vem pronta. O milho vem pronto. O bolo vem pronto. O palmito vem pronto.  A geléia vem pronta. O creme de leite vem pronto. E a doença vem no pacote, no lastro dessa comida cheia de conservantes químicos.  O arroz é branco. A farinha é branca. O açúcar é branco. Todas as farinhas brancas são um veneno para a saúde, mas ninguém reclama.  A maior parte da população ignora que a comida que se serve para o gado é feita com a parte nobre do trigo, enquanto os homens comem uma farinha desvitalizada. As prateleiras do supermercado estão lotadas com alimento industrializado enquanto os produtos naturais ocupam um pequeno espaço e são reabastecidos apenas duas a três vezes por mês.
E o mais grave: o nosso paladar acostumou-se prontamente ao sabor gostoso de tudo que é cremoso. Na verdade, o que é ruim faz bem. O que faz mal é muito  mais saboroso. Tudo tem sódio. A quantidade de sódio que ingerimos diariamente é muitíssimo superior à quantidade diária recomendada. Para mudar esse estado de coisas teríamos que rever profundamente os nossos conceitos e re-ensinar a memória gustativa a apreciar os sabores da terra. Sem conservantes. Sem acidulantes. Sem corantes. Mas a quem interessa uma memória gustativa rústica que coma moderadamente para viver, e não viva demasiadamente  para comer? Hoje um dos cursos mais procurados é de chef de cozinha. Sinal dos tempos:  Tempos de gula. Tempos de festivais gastronômicos.  Tempos de comilança desenfreada. Assim como foi nos dias de Noé quando as pessoas comiam, bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, a festa  hoje é da carne.
O meu  protesto é público. A minha resposta é individual. A nossa luta é diária. Eu confesso que tento, mas nem sempre consigo.


       
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