Eu já li muita coisa que foi escrita sobre as pessoas chatas, rabugentas, de mal com a vida. Muito já se falou sobre os indivíduos mal humorados que não conseguem enxergar a vida de maneira otimista. Todo mundo conhece uma pessoa dessas ou muitas dessas pessoas. São pessoas que acordam procurando um motivo para reclamar. Se faz sol, o sol queima a testa. Se faz chuva, a chuva molha o corpo. Se é verão, o calor incomoda. Se é inverno, o frio castiga. A meia estação reclama uma vocação. A estação inteira não encontra o seu destino. Pessoas assim sofrem de uma digressão emocional que as fazem ver o mundo sempre pelo avesso. Um avesso feito de nós que nunca desatam. Conviver com tais pessoas é um teste para a nossa paciência porque elas não fazem a menor questão de disfarçar os seus sentimentos. É parte intrínseca do perfil desse homem, ou dessa mulher, manifestar uma indignação gratuita contra o melhor dos mundos e isso convenhamos, afasta os demais habitantes do Planeta Terra. Todo mundo prefere manter certa distância do resmungão.
O oposto do resmungão é o indivíduo irritantemente feliz. Para falar a verdade, o indivíduo irritantemente feliz incomoda mais do que o rabugento. Incomoda porque faz barulho. Incomoda porque a felicidade é espaçosa. Incomoda porque a felicidade é invasiva. Incomoda porque a felicidade é inconveniente. Incomoda porque a felicidade do individuo irritantemente feliz agride mais de 90% dos indivíduos normais. E que se diga “normal” aquele cidadão que não manifesta nem alegria e nem tristeza. Aquele cidadão que apenas vive. Aquele cidadão que ninguém sabe direito se ele é o rabugento silencioso ou se ele é o feliz - sem o ser em demasia.
Era sábado a tarde, e eu estava na fila do açougue no supermercado, quando me deparei com um indivíduo irritantemente feliz. Os normais apenas davam um passinho para frente, a cada vez que a fila andava. Éramos uma massa silenciosa e nos movíamos de maneira quase automatizada. Ninguém dizia nada. Para uma fila de ônibus, só faltaria um cobrador dizendo – “um passinho para frente, por favor, minha gente.” Mas mesmo na falta do cobrador, não faltava o passinho para frente. Todo mundo em fila indiana. Todo mundo silencioso. Todo mundo circunspecto. Contudo, bem no meio da fila, lá estava o indivíduo irritantemente feliz. Ele não apenas se movia, como também fazia movimento. Era intenso o movimento ao seu redor. Ele não apenas dava um passinho para frente, como dava para trás, e para o lado, para a direita, e para a esquerda. Quando chegou a sua vez de pedir a carne no balcão, ele não apenas pediu a carne como fazem os indivíduos normais. Ele apontou com o dedo indicador e disse: “eu quero aquela carne bem cor de rosa. Essa aí que ficou esperando o dia inteiro por mim.” E ria, ria muito. E convocava a platéia em volta para participar da sua alegria irritantemente feliz. O vendedor, que fazia parte dos indivíduos normais, não ria, e nada respondia. Limitava-se a pegar a carne que o homem irritantemente feliz apontara com o dedo, e para a qual fizera uma declaração de amor. Mas a distância que o vendedor mantinha não intimidava o homem irritantemente feliz. Ele continuava movendo-se para a direita, e para a esquerda, e para frente, e para trás, comprando uma posta branca como se ela fosse rosa choque de tanta felicidade.
Quando finalmente deixei a fila estava exausta e irritantemente cansada de tanto observar o homem irritantemente feliz. Do outro lado do balcão, o vendedor, desamparado, não sabia direito o que fazer com aquele cidadão que ria onde não cabia o riso, que via o que ninguém enxergava, que se movia diante da vitrine, como se estivesse prestes a tocar num pote de ouro no fim do arco-íris. Os homens irritantemente normais, como era de se esperar, permaneceram irritantemente normais: nenhum deles riu, nenhum deles gritou, nenhum deles deixou transparecer a mais leve sombra de indignação pelo transtorno interior causado pelo homem irritantemente feliz. Nem eu. E cada um foi para a sua casa. E o resto eu não sei.
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