Qual o poder da rotina sobre as nossas vidas? O mesmo poder do hábito, das coisas acostumadas, que afetam tanto os humanos quanto os animais. Acostumamo-nos à mesma paisagem, ao mesmo trabalho, aos mesmos amigos, à mesma cidade, ao mesmo ir e vir, aos mesmos sabores e, por que não dizer, aos mesmos dissabores. O homem e o animal se adaptam a quase tudo nesta vida. Ou pelo menos, a tudo que não seja contra a sua natureza. E, dependendo da força da repetição, acostumamo-nos até àquilo que é contrário à nossa natureza. O pássaro foi feito para voar. Todo o seu mecanismo fisiológico contempla a natureza dos seres que foram feitos para voar. Contudo, já ouvi histórias de passarinhos que são mantidos aprisionados por tanto tempo, que deixaram de voar quando a gaiola foi aberta. É a força do hábito contrariando a força da natureza.
Lembra o mesmo poder que Pavlov descobriu quando aplicou aos animais a sua teoria do reflexo condicionado. Sabendo que depois do som da campainha viria o pedaço de carne, o cão desenvolveu um único comportamento automatizado: preparar o estômago para a digestão. De alguma maneira somos como o cão que espera que depois da campainha venha o pedaço de carne. E só esperamos por isso. E não esperamos por mais nada. Não pensamos em modificar o som da campainha. Não pensamos em fazer da campainha uma música. Por quê? Porque estamos esperando pela carne. De tanto repetir e repetir o mesmo comportamento todos os dias, alguma coisa dentro de nós cria o mecanismo da gratificação imediata pelo universo conhecido. Somos como animais que salivam após o estímulo sonoro e criam toda uma expectativa de coisa boa em torno dos hábitos de cada dia. E qual seria essa coisa boa? Eu creio que essa coisa boa é a segurança que nos traz aquilo que já conhecemos. O sentimento de que, se fizermos hoje o que já fizemos ontem, e antes de ontem, não correremos perigo algum. Tudo o que não conhecemos representa o desconhecido. Óbvio e elementar. Mas o que não é óbvio e não deveria fazer parte do elementar é que tudo o que é desconhecido funcione como uma ameaça. Temos medo de fazer diferente. Engessamos nossos hábitos quase sem sentir e isso vai passando de pai para filho em situações corriqueiras e ordinárias que se refletem nas pequenas escolhas. Numa família é comum a mãe dizer para os filhos na hora da refeição: “não sente nessa cadeira que aí é o lugar do papai.” O pai senta-se na mesma cadeira todos os dias e a cadeira vai se amoldando ao bumbum do pai a tal ponto que a cadeira e o pai são uma extensão um do outro. Ninguém sabe mais onde começa a cadeira e onde termina o pai. Sentado na mesma cadeira todos os dias, o pai só desenvolve um ângulo de visão. Todos os dias o pai vê a mesma paisagem. E o mesmo acontece com a mãe e com os filhos. Hábitos. Rotina. E quanto mais envelhecemos, mais nos deparamos com essas miudezas que nos datam e nos cercam como muralhas.
Eu conheci uma moça de 25 anos que namorava um moço de 40. Ambos jovens. Ambos lindos. Ambos cheios de amor e de projetos futuros. Mas um dia, esse moço ligou para ela, e disse assim: “estou chateado. A minha tia veio me visitar e consumiu a minha faquinha de cortar pão.” A moça não compreendeu nada. Para ela não fazia o menor sentido o aborrecimento do moço. Para ela, bastaria ir até o supermercado comprar outra faca de pão. Mas para ele, a coisa não era tão simples. Para ele aquela faquinha de pão era a única que poderia cortar o sagrado pão de cada dia. Para ele, a faca se tornara sagrada também. Felizmente os dois não se casaram. Não daria certo: ela ainda não havia atingido o estágio mórbido de ter uma só faquinha para cortar o pão. Ou uma só xícara para tomar o café. Ou um só lado da cama para dormir. Ou um só chinelo para por o pé.
A vida é movimento. Movimentos que se repetem continuamente causam a LER – Lesão por esforço repetitivo. Para curar uma LER mecânica precisamos interromper os atos repetitivos. Para curar uma LER psicológica só obtendo uma visão mais crítica das miudezas que compõem o nosso mundo, impedindo que elas nos limitem por todos os lados. Caso contrário, corremos o risco de valorizar mais a faca do que o pão.
|