Eu não queria falar dos militares brasileiros que morreram no Haiti. Mas visualizando as fotos de alguns desses homens, meu coração ficou comovido. Conheci algumas de suas histórias, crenças e projetos. Fiquei alguns dias elaborando sentimentos. Gastei algum tempo internalizando os efeitos das manchetes catastróficas que me vinham dos jornais. Os militares brasileiros que morreram no Haiti fizeram história. Como fazem também história os militares brasileiros que morrem todos os dias, em situações comuns e ordinárias, neste país. Gente com um perfil individualizado onde cabem os muitos sonhos que são abortados por um único pesadelo coletivo: o pesadelo da morte que chega sem avisar.
Todos nós fazemos a nossa história e um dia, fatalmente, essa história terá um fim. Todos nós deixaremos uma lacuna na vida daqueles que nos amam cujo tamanho e amplitude será tão grande quanto os laços que conseguirmos construir. A morte de um homem tem o efeito de um terremoto que abala os alicerces dos que estão mais próximos do epicentro de sua vida. A morte abre crateras emocionais em estruturas psicologicamente bem construídas e aparentemente inabaláveis. Ouso dizer que quanto mais equilibrada for a psique de um indivíduo, mais sensível ele se torna, quando se depara com a morte de um ente querido. A medida do equilíbrio não está na imunidade contra a dor, mas na transformação dessa dor em algum outro sentimento muito próximo que possa ser revertido em compaixão por todos os seres vivos que habitam a terra, incluindo aí os animais. Não acredito em sensibilidade humana que deixe os animais e a natureza fora de alcance. Um indivíduo que não se sensibiliza pelo sofrimento de um animal, é um indivíduo que não foi aprimorado em amor.
A morte é um teste para os vivos. Só depois de conhecer de perto os efeitos devastadores da morte, as pessoas podem saber se são, ou se pensavam ser, se eram, ou se não eram. A morte mede exatamente quanto um homem tem de espírito e quanto tem de matéria. A morte mede a parte que é tangível, e a separa da parte que transcende se eleva e alcança os céus. E tudo isso acontece no mundo dos muito vivos. Os mortos apenas entram em paz.
Partindo desse princípio, volto ao militares brasileiros que morreram no Haiti. O terremoto foi lá, mas os seus efeitos se fazem sentir aqui. Houve um terremoto de intensa magnitude na cidade de Lorena, onde residia boa parte dos jovens do Exército que morreram no Haiti. Houve um terremoto de idêntico poder devastador no Paraná e no Brasil da Dra. Zilda Arns e do Vice Representante especial da ONU no Haiti, Luiz Carlos da Costa. Houve um terremoto em cada cidade que tinha algum cidadão brasileiro trabalhando no Haiti. E a ordem agora é a reconstrução. Como reconstruir um mundo que foi seriamente abalado pelo poder devastador da morte? Para crer no poder da morte basta estar vivo. Para crer no poder da ressurreição é preciso algo mais. É preciso ter cultivado a fé no Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fora de Jesus não há ressurreição, não há esperança, não há reconstrução.
Apreciei muitíssimo o cerimonial com que tais soldados foram distinguidos por ocasião do sepultamento com honras militares. Apreciei muitíssimo que o Presidente Lula os tenha chamado de heróis. Mas gostaria que cada soldado que tomba ferido nesse Brasil de tantas guerras com bandidos, traficantes e facções criminosas, tivesse idêntico reconhecimento por parte das autoridades constituídas. Os nossos heróis anônimos enfrentam a morte todos os dias e quando dela saem vencidos, são sepultados sem nenhum dos direitos que foram atribuídos aos militares brasileiros mortos no Haiti. Qual a diferença? Cada um, à sua maneira, estava no lugar certo, na hora errada. Cada um estava no cumprimento da estrita missão de promover a paz entre os homens e doar a vida pela causa para a qual foi chamado para servir. Servir no Haiti, ou servir no Brasil, é tão somente uma questão circunstancial e geográfica. Como os terremotos. Aqui e ali os terremotos passam. As crateras ficam.
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