O dia 27 de dezembro é sempre um dia muito especial para mim. Um dia em que se misturam recordações doces e felizes com outras, amargas e ruins. Todo ano, nesse dia, por obra e graça de Deus, nunca estou acompanhada das pessoas que poderiam amenizar os meus sentimentos. Nesse dia, é como se, por mão invisível, eu tivesse que depender apenas de Deus. Então sempre me vem à mente o Salmo 46: “ Deus é o meu refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.”
Neste ano não foi tão diferente. Descobri-me na eminência de passar mais um dia 27 de dezembro na companhia de Deus e das minhas lembranças. Após uma semana viajando, marquei o retorno para essa data. Poderia ter ficado mais um dia, mais dois dias, mas fixei a volta para esse dia porque era mais conveniente a outros interesses. Não se vive só de sentimentos e algumas demandas são até mais exigentes do que aquelas que nos são impostas pelo coração.
Passar a data sozinha é parte de um longo aprendizado que já dura 15 anos e que acontece quase de forma involuntária. Acontece. E talvez seja, para mim, uma forma de expiação.
Eu deveria estar no aeroporto às 5:00 horas. Às 6:15 estava dentro do avião e as 6,30 levantamos vôo com destino à cidade de Maringá. O vôo ocorreu normalmente, mas no procedimento de descida, quando já estávamos quase tocando o solo, repentinamente o piloto arremeteu. Não havia teto no aeroporto de Maringá devido às más condições meteorológicas. Lá em cima, voando sobre as nuvens havia sol e nada faria supor que, ao iniciarem-se os procedimentos de descida, encontraríamos condições meteorológicas tão adversas. Em vista disso, após a segunda tentativa frustrada de pouso, o piloto arremeteu novamente e anunciou que estávamos retornando para Campinas.
Mas eu não fizera tudo o que deveria ter feito? A resposta é sim. Eu acordei mais cedo do que seria necessário e compareci para o embarque na hora marcada. A companhia aérea também cumpriu rigorosamente o protocolo. O avião decolou, seguiu à risca o plano de vôo, sobrevoou o espaço aéreo em Maringá, quase chegou a tocar a cabeceira da pista, e no último momento, arremeteu nos deixando com a sensação de que algo havia escapado ao controle do homem e da máquina.
Voltamos para Campinas. Apesar da vontade comum de pousar em Maringá. Apesar da nossa firme intenção. Apesar dos planos humanos. Era o nosso desejo desembarcar em Maringá. Era o desejo da companhia aérea deixar aqueles passageiros e receber outros que fariam a rota inversa. Não obstante, um denso nevoeiro impediu os objetivos final. Voltamos para o marco zero.
De volta a Campinas ficamos das 8,30 até a hora do almoço sem previsão de embarque. Crianças choravam impacientes. Adultos dormiam sentados nos bancos. A empresa ofereceu um voucher para alimentação. Pouco dinheiro se comparado aos preços praticados nos restaurantes do aeroporto, onde ainda se pensa que só os ricos viajam de avião. Muito dinheiro se comparado à injustiça de ter que pagar por algo que foge completamente ao controle da empresa. Não sou a favor desse tipo de reembolso. Porque acho que não há culpados. E porque penso que a empresa já sofre o prejuízo de deslocar a aeronave duas vezes a peso de toneladas.
Mas essa crônica não é apara defender nem o consumidor e nem a empresa aérea. É para traçar um paralelo entre os nossos planos e os planos de Deus. É para estabelecer uma simbologia que possa sinalizar “que do coração do homem procedem os planos, mas de Deus vem a resposta.”
Às 13 horas, levantamos vôo, segunda vez, em direção a Maringá. O tempo continuava fechado, mas na aproximação da aeronave, as nuvens se abriram e o avião pode pousar. Minutos depois, o aeroporto voltava a ser fechado para pouso por falta de teto. As nuvens se retiraram por minutos para que o avião pousasse e voltaram para o seu lugar logo que o pouso aconteceu.
Assim é a vida. Um longo aprendizado para administrar a nossa vontade com os planos de Deus. Muitas vezes, fazemos tudo o que nos é dado fazer, cumprimos rigorosamente o protocolo da ética, do empenho, do esforço humano, mas na hora que pensamos colher o resultado final, nossos pés não conseguem tomar posse da terra prometida. Vemos a terra, mas não a tocamos. Uma força maior do que o nosso desejo nos subjuga e nos vence. Retornamos ao marco zero. Sentamo-nos à beira do caminho. Amargamos a espera. Dependemos de um voucher. Exercitamos a paciência. Encontramos a compreensão. Fazemos contato com as pessoas à nossa volta. Descobrimos os seus nomes e um pouco das suas histórias. Humanizamos o que é humano e divinizamos o que é divino. Então, Deus sopra um vento, dissipa as nuvens e pousamos. Pisamos em terra, mas ganhamos algo do céu. Algo que só ganhamos no processo de espera e submissão. Algo que só recebemos quando deixamos de empinar o nariz e curvamos a fronte.
Assim é a vida.
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