Perguntam-me se não gostei do cruzeiro. Respondo que nessa série de artigos faço o trabalho de um repórter que analisa e relata o que experimentou. Não dá para avaliar um cruzeiro pela ótica do bom e do ruim porque há momentos agradabilíssimos e outros imprevisíveis. No quesito imprevisibilidade fomos surpreendidos no retorno, pelas más condições atmosféricas, à altura da Lagoa dos Patos, já no Rio Grande do Sul. O resultado foi um mal estar generalizado denominado cinetose que só cessou quando o mau tempo passou. Num exercício de previsão negativa, se houvesse uma tempestade desde o primeiro dia, passaríamos os 7 dias com enjôo e indisposição. Não há luxo que substitua o bem estar e a saúde perfeita. São riscos com os quais as pessoas não contam, mas que podem perfeitamente acontecer e retirar o brilho da festa.
Uma vez no navio, o que se faz além de dormir e comer sem pagar? Há muitas atrações dentro de um navio. As pontes 5,6, 7 e 13, quatro andares inteiros, são dedicados ao lazer e ao convívio social. Cafés no melhor estilo europeu, salões com música ao vivo e pista de dança, para todos os gostos, do samba ao tango, fazem as delícias de dançarinos, boêmios, fumantes e beberrantes. Num salão enorme e luxuoso, considerado o centro do navio, - a sala de estar de todos nós – há, todas as noites, um recital de piano e instrumentos de sopro e de corda, para os que querem apenas conversar. Em outra ponte um free shop com famosas grifes internacionais, setorizadas por temas, e outros andares dedicados a galerias de arte, cassino, restaurante oriental (que cobra seus serviços à parte), um teatro maravilhoso em função todas as noites, além da enorme piscina com academia, sauna e SPA para tratamentos de beleza, massagens e coisas tais, a peso de dólares. E não falta quem esteja disposto a pagar por uma massagem tailandesa, feita por uma tailandesa, vestida com trajes tailandeses, cuja única linguagem inteligível é a linguagem das mãos.
Um navio tem tudo isso. Gente que paga e gente que gosta de pagar além do que já pagou. E talvez, alguma coisa a mais que eu não tenha visto, porque não creio que tenha percorrido todo o navio, nem captado toda a sua filosofia. Faltou fôlego, paciência e interesse para colher mais informações.
A academia merece um parágrafo à parte. Localizada na proa do navio, na última ponte, com paredes de vidros, caminha-se nas esteiras com a sensação de estar caminhando sobre as ondas. Aparelhos de última geração fazem com que cada sedentário sinta-se um atleta. Por conta disso, ninguém pode usar a academia sem antes assinar um termo de responsabilidade do tipo “ caso eu morra fazendo exercícios, autorizo jogar o presunto no mar para os peixes comerem.” Os termos da declaração parecem ter sido formulados contando seriamente com essa possibilidade, o que me leva a pensar que a companhia já enfrentou ocorrências desse tipo dentro do navio. Oito entre dez passageiros já dobraram o cabo da boa esperança há algum tempo. A população turística de um cruzeiro é velha. Excetuando-se os cruzeiros temáticos para jovens e universitários, de maneira geral, os viajantes são pessoas com idade avançada. O que não significa que são pessoas desanimadas.
Há muitas atividades para os socialmente ativos, com artrite ou com artrose. Para os noctívagos, um tal “Jantar Magnífico” é oferecido à 1 hora da manhã, e nesse jantar, esculturas são esculpidas em frutas, legumes, ou no gelo. Não participei de nenhum desses jantares. A essa hora eu estava dormindo porque não há magnitude maior para mim do que uma boa noite de sono. No outro dia, só me restava ouvir os relatos extasiados e pensar: “Quem sabe, esta noite eu participo.” Não participei.
Essas são as atrações de um navio em dias de navegação. Uma vez em terra, todo mundo aproveita para sair e conhecer novos lugares. Nesse, especificamente, houve três paradas: Punta Del Este, no Uruguai, Buenos Aires, na Argentina, e na volta, Montevidéu.
Todas as três mereceriam ser comentadas, mas por hoje é só. E talvez, eu não retorne mais ao tema. Ficará para o próximo cruzeiro.
Um Natal maravilhoso para todos e que Deus abençoe cada homem de boa vontade que navega pelos mares, que voa pelos ares, ou que anda na dura terra deste chão. Feliz Natal a todos!
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