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Cruzeiro pela América do Sul - Parte II

 
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No artigo da semana passada você soube que não basta ter em mãos um voucher para entrar num navio. É preciso estar munido  da paciência de Jó e submeter-se a uma série de procedimentos burocráticos  para, finalmente, pisar no tapete vermelho e receber as boas vindas à bordo.
 A  visão interna impressiona. Numa casa seria cafona, num navio é parte obrigatória do cenário: muito vermelho, muito dourado, muito espelho, muita luz e muito requinte. Tudo é muito.  O acesso se faz pela ponte 05 ( cada andar é uma ponte) onde está instalada a recepção. Ali confiscam o seu passaporte e não adianta você querer entender o por que. O italiano que lhe atende, sorri, gentilmente, e lhe entrega um cartãozinho amarelo onde está escrito que por exigências alfandegárias o seu passaporte ficará retido até o momento oportuno. O navio é um país flutuante cuja bandeira muda de cor, conforme as águas territoriais pelas quais navega. E ele tem as  próprias leis, às quais você pagou caro para ser submetido. Submeta-se, pois, com a imbecilidade de um turista em água estranha.
Uma vez ali dentro, fixe-se nas coisas boas e comece a usufruir da mordomia. Nem a bagagem de mão é preciso carregar. Todos os passageiros são recebidos com flashs que irão imortalizar a peso de dólares a sua viagem. Quem quer pagar 25 dólares a foto, paga; quem não quer, fica na parede até a próxima temporada. Eu fiquei.
 Fomos conduzidos à nona ponte pelo elevador onde convergem dois corredores paralelos: de um lado, as cabines pares; e de outro lado, as cabines ímpares. Os corredores têm a dimensão de uma pista de caminhada: são metros e metros recobertos por tapetes vermelhos, azuis, verdes, lilazes, cores diferentes em cada ponte. Um luxo. As paredes são decoradas com afrescos de mármore carrara que, por si só, valem a extensa caminhada.
  Finalmente chegamos à cabine de número 9031. A nossa cabine era externa e abria diretamente para uma varanda que oferecia o mar aos nossos pés. Uau!!! Só isso diz tudo.
A cabine de um navio lhe dá  o que você precisa: uma cama box de bom tamanho, um  banheiro pequeno, um chuveiro maravilhoso, ar condicionado digital, TV a cabo, uma poltrona para leitura com apoio para os pés, um enorme espelho, um armário compacto e uma bancada para objetos com secador de cabelo. A mulherada agradece. E os homens não reclamam.  Isso tudo aliado à varanda, era mais do que eu pretendia. Minha vontade era assumir o meu espaço no barraco, esparramar as minhas coisas, me espalhar na cama, dormir o sono dos cansados e só acordar no dia seguinte.  
Mas eu estava com fome, vocês se lembram? Eram 5 horas da tarde e ainda não havíamos almoçado. Fomos diretamente para a ponte 13 onde estavam servindo o almoço.
Mais tarde, descobri que, num navio, você pode almoçar como almoçam os ricos, ou como almoçam os comuns mortais. Há sempre 3 restaurantes disponíveis. Um na ponte 5, outro na ponte 6, outro na ponte 13. Na ponte 5 e 6, o serviço é a francesa. Você escolhe o que quer comer num cardápio recheado de nomes franceses que não lhe dizem nada e os pratos obedecem a uma ordem de sequência: entrada, o primeiro prato, o prato principal e a sobremesa. Se optar por esse serviço, o cidadão gastará em torno de 2 horas para almoçar ou para jantar. Tudo é delicado, servido em pequenas porções. Mas quando acaba, você sente que está bem: coube com exatidão dentro do estômago a quantia de comida que lhe foi designada. Porque se come devagar, dando tempo ao cérebro para registrar a saciedade com uma quantidade menor de comida.
No terceiro restaurante, sempre na ponte 13, à beira da piscina, esqueça as pequenas porções. O serviço é o self service americano e o prato que lhe oferecem é uma enorme travessa oval onde cabe tanta comida que jamais daria para qualquer pessoa engolir, por mais faminta que estivesse.
E aí começa um exercício crítico de infeliz constatação: muita gente tem dinheiro para comprar um cruzeiro, mas não tem educação e nem consciência moral para interpretar o ensinamento bíblico que Jesus nos deixou em relação ao pão: “recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca.”
 A grande maioria das pessoas  serve-se de uma quantidade inacreditável mesmo sabendo que não vai conseguir engolir tudo o que foi colocado no prato. Parecem querem descontar na comida o que gastaram no pacote inteiro. Parecem esquecer que dali a pouco tem mais. Que de hora em hora, um novo serviço gourmet é inaugurado sem custo.  Pressupõe-se que quando  tais pessoas nasceram, a comida não existia.   Ou que quando saírem do navio, ela acabará. Pressupõe-se que passaram fome e privação a vida toda  e em 7 dias querem tirar a barriga da miséria. O quadro é esse. A quantidade de comida que se desperdiça num navio daria para matar a fome de muitos homens e de muitos animais dos nossos bolsões de pobreza. Daria para alimentar multidões sem que fosse necessário o milagre da multiplicação dos pães. Apenas o milagre da razão, do bom senso e da boa educação.
 O self service do restaurante de um navio é um festival gastronômico que beira a loucura. Eu acredito que, em média, cada um desses glutões deva ter engordado 2 kgs na semana. Eu emagreci 500 gramas. Parece pouco, mas perder alguns gramas num cruzeiro é sempre uma grande vitória. Eu comemorei.
 Cruzeiro é lugar de engorda. Cruzeiro é lugar de desperdício. Cruzeiro é ambiente propício para nos lembrarmos de Mateus 24:38-39: "Pois assim como nos dias anteriores ao dilúvio as pessoas comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento até o dia em que Noé entrou na arca e não o perceberam até que veio o dilúvio e os levou a todos...” Comida e bebida: os deuses deste século. Esse parece ser um tempo em que a humanidade se esmera no pecado da gula.  Com ou sem cruzeiro.
Semana que vem, se Deus quiser, estarei aqui contando mais. 
 


       
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