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A Morte é Viva

 
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Esta semana, ouvi de um amigo enlutado estas palavras: “como a morte é viva.” Achei essa frase digna de uma reflexão mais elaborada porque a morte não guarda em si apenas a deterioração de um organismo, cujo coração para de bater, cujas ondas cerebrais cessam de existir, mas todo um significado metafísico e transcendental que, dependendo do ponto de vista, pode afetar os seres que ainda permanecem vivos à espera de uma viva morte.


Em algum momento da existência, os homens captarão essa realidade histórica incontestável: a morte é viva. Paradoxalmente, nem todos se deram conta dessa realidade. Há um mecanismo psicológico de defesa que não nos permite reconhecer a morte como uma instituição viva, capaz de produzir uma ação com resultados amplos e irreversíveis. Enquanto a morte mantém certa distância de nós, enquanto os que morrem são os outros, enquanto os outros são pessoas desconhecidas, a morte é real, mas não é viva. A morte passa a ser viva quando bate à porta da nossa casa, quando visita um ente querido, quando, pela primeira vez, descobrimos a vulnerabilidade da existência humana de maneira dolorosa, pessoal e intransferível.


John Donne, poeta inglês do século XVI, que viveu entre 1572 a 1631, escreveu estas palavras: “Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”


Corria o ano de 1572 quando John Donne nasceu. A morte já era atuante no mundo, desde a época de Adão e Eva. Não obstante, em algum momento da sua vida mental, John Donne ouviu os sinos dobrarem e repentinamente, foi afetado por essa realidade: a morte de um homem diminui a totalidade do gênero humano, assim como uma porção de terra levada pelo mar diminui a totalidade de um continente.


A morte de um homem é a máxima humilhação de toda a humanidade. Não há nada mais humilhante para a humanidade do que um homem, depositado numa caixa de madeira, sendo levado ao cemitério para ser comido pelos vermes. Não há nada mais injuriante do que a morte que sobrevém aos seres racionais e os torna um amontoado de matéria perecível. Vinte e quatro horas depois de morto, o homem precisa ser enterrado para que o estado de putrefação não alcance as narinas dos vivos. Vinte e quatro horas depois de morto, o homem fede. Toda pompa e circunstância socialmente atribuída aos seres que se reputam importantes, acaba na lápide de um túmulo. Sete palmos para baixo a imundície prescinde da honra de um sepulcro caiado. O que não nos impede a cal, a cerâmica, as flores e o granito. Os túmulos construídos para abrigar os mortos têm um efeito terapêutico quando decorado pelos vivos.


A morte nivela a todos, por baixo. A morte atinge mendigos e chefes de estado, juízes e criminosos, advogados e bandidos. A morte alcança miseráveis e milionários, e não tem preferências individuais a ponto de escolher estes e desprezar aqueles. A morte é altamente democrática na aplicação da sua lei. A lei da morte é para todos. A morte não escolhe nem mesmo os doentes, os velhos. Ela também se compraz acolhendo os saudáveis, aqueles que estão em sua melhor forma física. A morte é todo-inclusiva e por isso a morte é viva. Não há nada mais vivo do que a morte. Nem mesmo a vida é mais viva do que a morte, porque a vida nasce cheia e vai definhando. A morte nasce débil e vai ganhando contornos de realidade histórica. A cada dia, a morte cresce em nós e a vida diminui para nós. De uma hora para outra, os vivos morrem. Leva-se 9 meses para nascer e poucos segundos para morrer. Há um encadeamento natural ligando o nascimento à morte. A ação da morte começa no segundo mesmo em que nascemos, através do processo de degeneração celular que principia, de maneira imperceptível, e a certa altura da vida, nos surpreende de maneira irreversível.


Os cientista dizem que as nossas células são “xerocadas” todos os dias e que a cada dia, a cópia perde qualidade para a matriz original. De certa maneira podemos dizer que nascemos cheios de vida e morremos cheios de morte. A vida é como um reservatório de água que vai esvaziando aos poucos sem que possamos sequer saber a quantas anda o nível do nosso reservatório.


Gastar os nossos dias de maneira aleatória, é como desperdiçar uma porção de água. Viver de maneira inconseqüente é como deixar uma torneira vazando por falta de registro. Essa comparação sempre me pareceu fantástica: a água e a vida são dois bens supremos. Assim como não valorizamos a água quando ela está disponível na torneira, também corremos o risco de não valorizar a vida enquanto estamos cheios de vida.


Quando os seres humanos são impressionados pela morte, também são seduzidos pela vida. Só valorizamos verdadeiramente a vida quando a morte ganha significado dentro de nós. Em última análise, é esse fato que nos distingue dos animais: a consciência da brevidade da vida. Os animais não evocam a vida como um bem supremo porque as suas sinapses neuronais não lhes permitem estabelecer conceitos abstratos. Por mais que um cientista neuro-comportamental queira treinar um animal para a realidade da morte, não o conseguirá. O curioso é que, a grande maioria dos homens, embora tenha as suas faculdades mentais elaboradas para conceitos abstratos, ainda persiste em ignorar a “abstração concreta” de que a morte é viva. Elimina-se a idéia da morte cultuando a vida, sem perceber que morte e vida são dois aspectos de um único processo. O tema permanece sob tabu até que, um dia, como resultado de um processo natural, todo homem é confrontado com o doloroso dever de sepultar os seus entes queridos. Nesse dia, ele descobre que a morte é viva.
Neste artigo cabe-me o doloroso dever de lhe informar: não apenas a morte é viva, como você que é vivo, vai morrer de uma viva morte. Essa é uma má notícia.


A boa notícia é que você não precisa morrer em corpo, alma e espírito. Apenas o corpo basta. Sua alma e seu espírito podem estar livres da corrupção pelo exercício de uma viva fé em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, cuja morte incluiu na cruz, na justificação, na reconciliação e na redenção, todo homem que o receba como seu único e suficiente salvador. Tome posse da sua herança celestial aceitando o sacrifício que Cristo já realizou por você.


João 11:25-26 – “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente.”

 


 


       
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