Ela é operadora de telemarketing, em São Paulo. Acorda todo dia às 4 horas da manhã. Faz o café. Prepara o almoço que consiste basicamente de frutas. A fruta que ela mais gosta é banana. Mas, às vezes, para variar, ela leva maçã. Coloca tudo numa lancheira. Às 5 horas está na fila do ônibus. No percurso entre a casa e o ponto de ônibus já foi assaltada. O ladrão era bonzinho, só levou a lancheira. A viagem até o trabalho dura 3 horas. No percurso toma 4 ônibus diferentes. Às vezes, viaja em pé. Chega por volta de 8 horas da manhã. Trabalha até às 5 horas da tarde. Faz o caminho inverso. Retorna à casa por volta de 21 horas. Porque, na volta, o trânsito fica mais pesado. Dorme. Acorda. Começa tudo de novo. Diz que está acostumada. Que a única coisa que a incomoda um pouco é o coletivo que está sempre lotado. A família mora em Paissandu, cidade vizinha a Maringá. Poucos mil habitantes. Mas ela não volta, porque está acostumada com a vida em São Paulo. Em Paissandu, ela teria que se acostumar à vida em Paissandu. Foi assim que ela disse. Ela também disse que a gente se acostuma com tudo. Quando ela disse isso eu fiquei pensando se deveria – ou não- acreditar. Não acreditei. Mas gostei de pensar assim: “eu vivo porque estou acostumada.” Achei uma frase bem legal. Fiquei olhando para ela e pensando: essa frase dá uma crônica. Mas não foi ela quem inventou a frase. Ela inventou a idéia. A idéia foi dela, a frase é minha.
Acostuma-se com tudo nesta vida? Às vezes, eu me pergunto. Na elaboração da resposta, observo os animais. Os cachorros latem quando são amarrados. Cachorros não nasceram para viver amarrados. Os canários cantam furiosamente quando são engaiolados. É uma forma de protestar. Os gatos escalam muros altíssimos quando têm o seu espaço delimitado. Os burros empinam a carroça quando se sentem explorados. A natureza encontra um jeito de berrar a sua indignação contra toda forma de abuso. Mas o ser humano se acostuma. Acostumamo-nos a viver comendo arroz integral na hora do almoço e pão integral na hora do café. A vida é um costume. Vivemos porque estamos acostumados. E quanto mais vivemos, mais acostumamos.