No dia 14 de janeiro de 1990 escrevi essa crônica, numa máquina de escrever Remington Rand. Sentimento é algo que não fica velho, que não perde a força, que não desgasta com o tempo. Sentimento é voz que vem de dentro e nos ensina uma canção. Feia ou bonita, ela marca. Sempre tive mania de descrever sentimentos, meio porque sou assim, sentimental mesmo, meio porque sempre pensei que o ofício de escrever fora-me dado como uma faca cravada em território íntimo que, quando fosse sacada, deveria envolver o mundo com o perfume de uma rosa ou com o cheiro de sangue. Sentimento é isso. Ora fede, ora perfuma.
Não é fácil falar sobre sentimentos: essa coisa subjetiva. Mas naquele dia, amanheci inspirada. Comecei dizendo assim: “Fronteira é tudo o que limita, o que cerceia, o que decreta, o que confina, o que isola. Fronteira é também os limites que impomos a nós mesmos, e não conseguimos derrubar, o domínio substancial da razão sobre a emoção, o postulado individual que forjamos acerca da vida e que pode nos servir como grilhões.”
Bonito, não é? Isso é sentimento. Sentimento é o que eu tenho de melhor. Essa coisa subjetiva que, de vez em quando, eu saco de dentro, tomo nas mãos com grandes olhos de espanto e revelo ao mundo. E quem tem olhos para ver, que veja.
"Daqui de onde escrevo, percebo que me é mais fácil falar de uma outra fronteira que a minha natureza arredia torna mais complexa de vencer: o muro que separa a minha casa da casa da minha vizinha.
Da fronteira do meu quintal, vejo as bandeiras da casa vizinha: toalhas, saias, vestidos, lençóis, cuecas e calcinhas desfraldadas no varal. A explosão de cores anunciando a pequena vida de cada dia. Vejo um gato passeando a elegância felina no telhado, uma galinha ciscando miúdo, um cachorro que dorme acostumado. Vejo o pé de manga apontando majestoso para cima e para o alto: uma nesga de céu! Vejo momentos cristalizados em códigos inequívocos. Vejo a vida.
Essa fronteira de muro não impede que ouçamos a nossa conversa, o nosso grito, a nossa música, e todos os mecanismos que usamos para abrandar as neuroses de cada dia: concedemo-nos mutuamente o eco dos pequenos rituais. Também não impede o cheiro de carne assada que vem de lá ou de cá. De lá, também, soam ecos dos pequenos dramas de cá: o feijão que queimou, a pia que entupiu, o cachorro que morreu, a criança que caiu. Cada um desses momentos são amenizados pela rosa vermelha que desabrocha no jardim, ou pelo canto de um passarinho que pousou no muro. Passarinho não tem muro.
Isso é tudo o que recebo de lá e é tudo o que os meus vizinhos recebem de cá. Algo em mim delimita a fronteira, mais que o muro. Algo em mim se fez trincheira.
Se eu não vivesse em guerra, entraria pela cozinha, botaria a minha colher no tacho de doce, e provaria da vida com seus veios de ouro, de prata, de bronze, de barro, e de pó. Juntos, dividiríamos a perplexidade diante do irremediável, falaríamos de amores quase perfeitos, de velhos e de moços, de alegrias e tristezas, do custo de vida e da vida que custa, da chuva e do sol e de todos os elementos da natureza.
Eu falaria também, aos poucos, como quem revela um segredo, que a coisa mais triste para mim é um dia sem sol que faz a minha natureza de pouca alegria ver o cinza quase negro – um daltonismo exclusivamente emocional no meu raciocínio estrábico. Depois eu pediria a receita daquele bolo cujo cheiro alcança o meu território todo sábado à tardinha, fazendo-me lembrar doçuras nunca dantes experimentadas. E entre tantas amenidades, sem nenhuma lembrança do cerimonial com que se distinguem as visitas muito chatas, sairia pela porta da cozinha por onde entrei.
Na saída, abanando tranqüilo o rabo, o cachorro me saudaria, o gato viria enroscar-se no meu pé, a galinha me despediria com um corococó de asas abertas em defesa dos pintainhos. E mesmo que eu furtasse a rosa vermelha do jardim, ainda assim haveria a nos unir o vôo da andorinha no espetáculo da vida. A vida como ela é. A vida que é feita de sentimentos. Que anoitecem, amanhecem e continuam sendo."
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