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Bonitinho mas ordinário

 
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O que nos faz levar para casa um sapato que machuca o pé? O que nos faz acreditar na conversa fiada da vendedora de que, com alguns dias de uso, ele amacia? O que nos faz pensar que conseguiremos suportar o aperto só porque o sapato é moderno e bonitinho? O que nos faz menosprezar os avisos sensoriais que indicam que, se está doendo em questão de segundos, doerá muito mais depois de algumas horas, cujos minutos parecerão uma eternidade? O que nos faz andar pra lá e pra cá, na loja, experimentando o que já sabemos que vai doer? Que não vai ceder? Que vai machucar? Por que não viramos as costas para aquilo que tem grande vocação para nos maltratar?
 
Essas coisas não deveriam me acontecer, só que ainda acontecem. Ainda levo para a casa um sapato maravilhoso, que combina com aquele vestido igualmente maravilhoso, e ainda acredito que, após algumas ocasiões de uso, aquele sapato maravilhoso e ordinário vai estar completamente conformado ao contorno do meu pé maravilhoso. Só que não é bem assim que acontece. O que acontece é justamente o inverso: depois de algum tempo de uso, o sapato vai para um lado, e eu vou para o outro. O destino do sapato é a caixa, onde ficará esquecido até que  seja, enviado para um lugar onde outra pessoa possa fazer bom uso daquilo que me causava dor e aperto. O meu destino é lamentar: “como fui burra” e tentar encontrar outro sapato que tenha sido feito sob medida para o meu pé.
 
O problema está exatamente aqui: o sapato é o meu número. Eu tenho a grata satisfação de calçar o número 37 e o sapato é número 37. Mas apesar do sapato ser o meu número, não serve para o meu pé. Isso é um mistério que o instituto nacional de pesos e medidas deveria desvendar para cada um de nós. Mas enquanto o instituto de pesos e medidas não toma as medidas cabíveis, vou me defendendo como posso. Há sapatos que são o meu número, mas não cabem no meu pé. Não compro. Ponto.
 
Para falar a verdade, nem sempre é assim tão simples. De vez em quando, burra que sou, acabo seduzida pela promessa da vendedora de que o sapato vai caber, vai entrar, vai se amoldar. Porque isso é  tudo o que desejo ouvir, apaixonada que estou pela sua beleza. Junta a fome da vendedora - de vender - com a minha vontade de comprar. Afinal, é o meu número. Por que não cabe, por que não entra e por que não se molda é um enigma que não me cabe desvendar. Só desviar.
 
Outro dia, eu estava num congresso de crentes, em Balneário Camboriu, e participei de um diálogo que me cortou o coração. Uma missionária que calçava 37, estava usando um sapato de número 36 e explicou, com a conformidade dos símplices, que missionária não tem peso e nem medidas. Que missionária calça o número que lhe dão. Foi um chute na canela dessa folgada que detesta aperto.
 
Mas acontece o seguinte: eu não sou missionária. Não tenho pés como o das corças nos lugares altos. Se o sapato machuca o meu pé, eu o mando para aquele lugar: lugar de esquecimento. Meu pé ele não vai apertar. Mesmo que seja o meu número. Mesmo que combine com o meu vestido. Mesmo que seja um Manolo Blahniki. E mesmo que seja menos. Bem menos. Quase nada.
 
Gosto mesmo é de havaianas. Não aperta, não solta as tiras, e não tem mau cheiro. E de quebra, se acomoda perfeitamente a dois números. Um deles, certamente será o seu.


       
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