Dia de luz, festa de sol, só não tem barquinho a deslizar porque falta rio e falta mar. Mas na falta do barquinho, creio que deslizarei muito maciamente sobre este 7 de setembro. Vou confessar a vocês: o feriado de segundona, que faz a delícia dos mouros do mundo trabalhador, para nós, seres em permanente estado de observação, é uma atrapalhação de bom tamanho. A casa amanhece pedindo faxina depois da bagunça do final de semana, mas a faxineira não vem. A geladeira permanece vazia- porque ninguém lembrou-se de abastecê-la duplamente para o fim de semana prolongado- mas os gêneros de primeira necessidade e seus produtores sumiram da esquina a despeito do quanto o 7 de setembro não tenha contribuído em nada para a independência econômica de cada um. A verdade é que feriado é bom, e todo mundo gosta. E quem não gosta, desgosta, mas segue o fluxo, e vai em frente.
O que me salva é a primavera que ainda não chegou oficialmente ao calendário, mas já se faz anunciar na leve brisa perfumada e nos raios de sol que imprimem colorido a pensamentos esmaecidos. O que me salva também é a prima Vera que sempre tem na geladeira dela o que falta na minha. Quem tem uma primavera é bem aventurado com as cores do arco-íris. Quem tem duas, é privilegiado com as cores de um prato de comida bem balanceado. Para compensar a comilança desenfreada do domingo.
Neste país de tantas diversidades e adversidades, o duro mesmo não é absorver um feriado patriótico, mas os feriados religiosos que teimam em nos infringir um dia santificado. Que não temos motivo algum a mais para santificar, do que teríamos nos chamados dias não santificados. Feriado religioso deveria ser ponto facultativo para que cada um decidisse segundo as suas crenças e o seu livre pensar. Claro que isso traria uma complicação de bom tamanho: o que faria um empresário do Brasil evangélico, com a sua empresa, no dia 12 de outubro, quando os seus empregados católicos estivessem celebrando a padroeira do Brasil católico? Não sei o que faria. Mas conhecendo um pouco dos seres humanos, acho que isso acabaria promovendo um apartheid religioso dentro das empresas. Melhor ficar como está. Melhor aproveitar o dia 12 de outubro para pescar.
Mas hoje é 7 de setembro. Uma boa opção é assistir a revoada das andorinhas e o barulho das maritacas que celebram a vida, do nascer ao por do sol. Outra opção, é assistir o tradicional desfile cívico e militar, em Brasília, na Esplanada dos Ministérios, que neste ano conta com a presença do presidente da França, Nicolas Sarkozy. Talvez, Carla Bruni esteja lá. Talvez a Esquadrilha da Fumaça Francesa, faça mais fumaça do que a Esquadrilha da Fumaça brasileira. Talvez. Mas Carla Bruni, certamente, fará mais fumaça do que todas as mulheres brasileiras reunidas no palanque. Dona Marisa Letícia que me perdoe, mas hoje não vai ter pra mais ninguém.
Sinceramente? Eu prefiro a revoada das andorinhas e o som das maritacas.
Enfim, para terminar esta crônica de uma forma abençoadora quero relembrar o Salmo 118, versículo 24: “Este é o dia que o Senhor nos fez. Alegremo-nos e regozijemo-nos nEle.”
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