Ontem não era o dia combinado para vestir pijama. O dia certo é hoje, o domingo. Domingo é o dia Nacional do Pijama. Comprei três novos: um de inverno, um de meia estação e um de verão. Mas ainda não usei, e nem sei quando usarei, porque gosto mesmo é dos velhos. Dos velhos pijamas. Nesses, o elástico já adquiriu a dimensão da cintura e o decote já não aperta mais o pescoço porque foi devidamente recortado pela minha tesoura. Aprendi na adolescência, com o Valterley Salmazo, que a tesoura é um objeto muito útil para cortes e recortes.
Era uma manhã de segunda feira, e o Valterley apareceu no colégio com uma camisa de manga comprida. De brilhantina no cabelo, todo social chic: uma gracinha! Dona Etelvina, inspetora de alunos, com as grossas lentes da sua miopia, olhou para o Teley e vociferou em ríspidas palavras :“ não vai entrar. O uniforme exige camisa de manga curta.” Sem discutir o regulamento, ele deu as costas para ela, voltou-se para a turma e perguntou: “alguém aí tem uma tesoura?” Deu sorte. Era o dia da aula de Trabalhos Manuais e todas as meninas tinham uma tesoura. O nosso mocinho tirou a camisa, e de peito nu, cortou as mangas da camisa na altura do bíceps. Depois, tornou a vestí-la, e com os retalhos no chão, e a autoridade da inspetora de alunos na lata do lixo, entrou triunfalmente na sala de aula, sob o aplauso de meninos e meninas. Foi o máximo da rebeldia que tivemos entre nós naquele ano.
No ano seguinte, outras vieram. Mas aquela me serviu para o resto da vida. Depois disso já cortei manga de camiseta em Israel, sob o sol do deserto, e em casa corto tudo o que me incomoda: pijama, bermuda, calça jeans, tira de sandália. E a cada vez que repito o gesto, sempre me lembro da cena daquela manhã da era prisca em que descobri que transgredir podia ser mais do que um ato de Inteligência contra toda burrice constituída.
Aquilo me encantou. Não somente pela disposição de combater a tirania das imposições descabidas, como pela plasticidade de conferir um novo uso a uma camisa social. Naquele momento, eu tive um vislumbre da análise relacional que pode ser estabelecida entre as coisas e seus donos: a camisa fora feita para servir o Valterley, e não o oposto. Se naquele momento, ele precisava de uma camisa de manga curta, por que não fazer a customização da peça? Num tempo em que a palavra customizar nem existia, já existia o seu conceito. Captei a mensagem.
Ontem, em pleno sábado, vesti pijama até as 15 horas. Pijama customizado. Nem parece um pijama. Depois, para não emendar um pijama com outro pijama, coloquei uma roupa de fitness e fui malhar. Na academia, entre nós, os fanáticos de plantão, encontrei um homem trabalhando. Um trabalho braçal: em pé, sobre uma escada, ele fazia a limpeza do teto do salão, cuja dimensão ultrapassa 800 metros quadrados. Enquanto cumpria o meu treino, fui experimentando a dor atlética de cada dia. Mas também experimentei a dor que irradiava do pescoço daquele homem. Como um cisne, o dele se movia penosamente, em círculos. Mas os pescoços humanos -eu sei, com certeza- não foram feitos para ficar o dia todo na mesma posição. Pescoço foi feito para girar a cabeça, para a direita, e para a esquerda. Eventualmente, para o alto. Raramente, para baixo. Adivinhei a rigidez involuntária, a lesão por esforço repetitivo. A árdua tarefa de olhar para cima, sem nunca avistar o céu. Perguntei se ele tinha em casa um relaxante muscular. Expliquei para o que serviria. Ele me olhou e sorriu agradecido. Depois, explicou: “Dói, mas eu já estou acostumado.” Captei a mensagem.
Também estou acostumada com a dor e a delícia de ser quem sou. De mensagem em mensagem, vamos construindo o nosso ideário social. Como quem veste um pijama. Elas vão se adaptando às nossas interpretações subjetivas e fazem de nós o que cada um tem de melhor e de pior. Com toda a displicência que a vida confere às miudezas, são elas quem formam as nossas convicções. Viver é estar acostumado.
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