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A paz de um oceano

 
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Quando nasci, o departamento de expedição fez o reconhecimento do sexo: feminino. A partir daí fui educada para viver em função da função ovariana. Com e sem trocadilho. Para treinar, deram-me uma boneca. Porque mulher é assim: antes de aprender a ser gente, já começa aprendendo a ser mãe. Minha boneca, nos padrões da época,  tinha cara de porcelana e corpo de pano. Feia. Mas como mãe, embora assustada, perplexa e admirada com os padrões anti-estéticos do rebento que me designaram, eu não decepcionei: fui logo me apaixonando por aquele arremedo de maternidade incipiente que me puseram no colo. Para mim, aquela boneca era linda porque  era minha. Síndrome da coruja.
 Depois que a maternidade se instalou de forma visceral dentro de mim, descobri que toda mãe precisava ter uma casa para criar o  filho.  E que toda casa precisava ter fogão. De maneira que, todos os dias, antes de acordar a boneca, eu delimitava um espaço de paredes imaginárias, riscando um retângulo no chão.  Dentro daquele retângulo, vivíamos ela e eu. Mais ninguém podia entrar. Só uma galinha velha, que ciscava o quintal, era admitida dentro do recinto. Teria vindo daí o meu amor pelos galináceos. Aquela galinha foi o meu primeiro cachorro de estimação. A guardadora da primeira casa. Não latia, mas ciscava. Existíamos as três.  Me bastava.  
Como uma boa mãe eu  inventava  o aconchego com caixotes de madeira que representavam todos os móveis do quarto à sala, da sala à cozinha. Mas felicidade mesmo era sentar lá “fora”, depois da casa arrumada, varrida, adornada, com a boneca no colo, embrulhada num pedaço de pano. Era, então, quando eu suspirava de prazer pelo momento redondo, completo, acabado, sem princípio, sem meio, sem fim. Eterno.
Meu  bebê era absolutamente calmo porque tinha uma mãe que adivinhava todos os seus desejos. A maternidade nunca me foi questão, antes o pretexto para admirar a mãe que havia em mim. Isso foi assim.  Até o dia em que meti a boneca numa tina de água para o primeiro banho e ela perdeu parte da compostura original: ficou toda desmilinguida, braços e pernas estirados para lados opostos.
 Nesse dia, eu chorei. Chorei porque não fora capaz de evitar que a vida lhe fosse má. E  dessa forma aprendi que as mães não podem evitar que os seus filhos sofram por defeitos de fabricação.  Eu adivinhava o sofrimento da minha filha, de pernas e braços moles, sem cálcio, sem estofo, portadora de uma síndrome sem cura. Mesmo assim, não quis trocar de filha.  Ela me foi companheira inseparável em toda a primeira infância. Morreu de velha quando se desmanchou de vez.  Fiz o enterro numa caixa de sapatos. E chorei. Chorei como só mais tarde saberia chorar.
Até ali, eu não tinha a menor idéia de como nasciam as crianças. Até ali, eu pensava que criança era comprada em loja de departamentos, como a boneca que me haviam dado dizendo assim: “esta é a sua filhinha. Cuide bem dela.” Eu cuidei. Cuidei da boneca e ao cuidar da boneca, de certa forma, cuidava também de mim, abalizando com esses contornos um mundo que  impedisse a entrada da tristeza e do mal.  
 Com um pouco de concentração, ainda me lembro  da paz ritual que  me envolvia: era bom demais!   No protocolo, eu era a mãe,  mas era também a filha ensinando como as crianças desejam que lhes seja o lar: um lugar de descanso. Um lugar de silêncio. Um lugar de afeto. Um lugar de pensar.   Aquela boneca me ofereceu  uma análise transacional quase solitária. Mas havia o ciscado da galinha e ela também cacarejava. O mundo afinal, sempre encontra um jeito de  produzir os seus ruídos.  
Toda mulher nasce com vocação para ser mãe solteira, essa é que é a verdade. No universo infantil feminino o homem não faz falta,  nem para fazer o bebê: compra-se pronto. É por isso que após o nascimento de um filho, a mulher esquece-se do marido e se concede exclusivamente para o bebê: porque nos primórdios da imaginação infantil, o homem é perfeitamente dispensável dentro de um lar,  as crianças são compradas numa loja, a casa é um pedacinho do paraíso, o mundo não é hostil, e ninguém precisa fazer sexo para ser feliz.
Basta uma boneca de pano. Uma galinha gorda. E a paz de um oceano.


       
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