Pela manhã, na academia, começamos o treino pela esteira. Ao som das máquinas ligadas, a televisão precisa ser sintonizada com volume mais alto e àquela barulheira toda, adiciona-se a tentativa de comunicação entre alguns de nós. Há pessoas que gostam de comentar as notícias ou acrescentar as suas próprias ao rol daquelas que os jornalistas nos jogam na cara todas as manhãs. Todas as manhãs na academia, sou confrontada com a espécie humana, para que eu não esqueça que faço parte dela. Para que eu não esqueça, que ela faz parte de mim. Não esqueço! Não consigo esquecer! Todas as manhãs, deixo as asas dentro de casa e entre esteiras, ferro, movimento, música e notícias, aterriso bem no centro da minha humanidade.
Ontem. Na TV, a manchete da longínqua morte de Michael Jackson; no recinto, a proximidade da violência urbana que está se instalando, gradativamente, entre nós. Um militar que treina conosco, nos contou que, durante a noite, num dos bairros mais pobres da cidade, um menor de 16 anos invadiu um barraco, e depois de amarrar e roubar uma mulher de 90 anos, arrancou-lhe os dentes e a estuprou. Um menor de 16 anos e uma mulher de 90 anos: as duas pontas na linha cronológica da humanidade. Um menor de 16 anos já é capaz de produzir tanta violência e uma mulher de 90 anos ainda consegue suportar tamanha afronta e dor. A humanidade é capaz de se superar a cada dia, tanto na concepção da maldade quanto da força interior. Misturada com a notícia da morte de Michael Jackson, o ambiente ficou impregnado pelo realismo cruel do lado mais negro da vida. É óbvio que as pessoas que ali estavam, na demanda por um corpo mais harmonioso e por uma vida mais saudável, não tinham em mente, naquele momento, receber na cara a desordem equívoca da realidade do mundo. Fomos pegos de surpresa. Assimilar a morte de Michael Jackson já nos trazia uma breve nostalgia que conseguiríamos suplantar com a liberação de endorfinas durante o treino. Mas o bizarro da segunda manchete, tão próxima de nós, foi a gota que faltava para semear a inconformidade e as mais diversas reações.
Foi aí que me nasceu essa crônica: observando as gradações do horror subjetivo que acabara de ocorrer dentro de cada espectador. Ao meu lado esquerdo, uma senhora religiosa e de bons princípios não conseguiu mais despegar-se da idéia do estupro. A cada série de exercícios, ela parava, pensativa, e se aproximava para compartilhar comigo a ponta do iceberg do seu horror particular: a idéia do estupro numa mulher de 90 anos. Ao meu lado direito, uma mulher mais liberada sexualmente, ficara retida na remoção dos dentes. Puxando ferro ou fazendo alongamento, ela retornava o tema, em busca de socorro contra a imagem que não lhe saía da cabeça, e que lhe era o cúmulo do horror. Coisa que, aliás, chamou-me atenção: ninguém questionou de onde teria vindo o tal boticão imaginário ou qual tipo de instrumento teria sido usado para extrair os dentes da anciã. Ninguém questionou se, por acaso, a mulher não usaria dentadura ou coisa que o valha, e se o objeto não estaria caído embaixo da cama. Nem eu. Mas que pensei, pensei. Só que não ousei diminuir o estado de comoção geral que se instalou e que, afinal, tem o seu aspecto terapêutico: fazer cada um enxergar o seu horror particular à luz dos horrores coletivos. O meu é mais grave porque continua sendo a percepção de todos, a soma de todos, a compreensão de todos, e a síntese de todos. O que me salva nessa desgraceira toda é o meu espírito analítico que cria uma dentadura onde falta dentes. Não deixa de ser uma forma de proteção.
|