- Onde está a indigência de uma pessoa?- Ela perguntou-se à simples menção dessa breve questão. Mas alguém que a amava queria apenas saber: “ como vai o seu coração e a sua alma?” pedindo licença para penetrar na individualidade desse vasto mundo onde o homem é ele com o seu cachorro, onde o homem é ele com a sua solidão desamparada. Desalentada, ela respondeu o que não podia, como se pudesse: “ o meu coração e a minha alma vão bem, obrigada.” Mas o que era a alma? Sim, era-lhe fácil compreender a alma como a sede das emoções, mas não lhe era fácil suportar o facho de luz que subitamente a inundara. Então, tinha mesmo uma alma, um lugar onde tudo deveria acontecer primeiro, um lugar onde tudo o que acontece primeiro deveria receber uma destinação secundária. No entanto, há quanto tempo esse “tudo” se acumulava? Não sabia. O coração, ela sabia, era o mordomo da alma, acostumado a manter as janelas fechadas para que a luz não a acordasse toda, ao mais breve amanhecer. E, no entanto, dormindo ou acordada, existiam ambas, conviviam ambas, ela e sua alma. E existiam de maneira desordenada, incoerente e transtornada. O que ela fazia de seus atos conscientes, todos os dias, cristalizava a normalidade possível, mas a indigência da alma a espreitava.
Por aqueles dias, havia ido ao médico. O médico não lhe perguntara: “como vai o seu coração e a sua alma.” Não havia liberdade para tanto. O médico não a amava. O médico apenas a examinava. A pergunta fora: “o que está acontecendo com você?” Ela referiu-se a um ressecamento que lhe causava ardor e desconforto, apontando para os olhos. Tão simples, tão prático, e tão objetivo relatar os olhos ardendo e coçando e, no instante seguinte, lacrimejando, num mecanismo de defesa natural contra a sequidão. Esse era o tipo de pergunta cuja luz permitia a escuridão: a penumbra de sua alma não fora ameaçada. No entanto, no segundo seguinte, identificou, horrorizada, que seu equilíbrio poderia tropeçar no degrau da indigência que a espreitava: - “você é daqui?” – perguntou o médico, todo aceso, subitamente iluminado pela consciência de que, diante dele estavam dois olhos e uma alma.
Será que todas as pessoas sabem exatamente de onde são? – perguntou-se intimamente. Deveria ser bom reconhecer o lugar a que se pertence, sem fazer um círculo no mapa. Todo homem deveria saber de onde veio e para onde vai, sem ter que recorrer a artifícios como nacionalidade, origem e etnia. Apenas observando dois pontos no universo: o ponto da chegada e o ponto da partida. Todo homem deveria saber que antes de pertencer a um país, a uma família e a si mesmo, pertence àquEle que o criou. Por que nos esquecemos disso? Por que com o radar dos nossos sentimentos não nos tornamos conscientes da grandeza do nosso destino?
Um homem deveria trafegar pelas avenidas internas de sua alma tão bem quanto trafega de casa para o trabalho, do trabalho para o clube, do clube para o supermercado, do supermercado para o fogão, do fogão para a mesa onde se alimenta todos os dias; e deveria comer de si, da sua essência, da mesma maneira como come o seu pão com margarina pela manhã, e o seu arroz com feijão ao meio dia. No entanto, o homem conhece a hora em que seu intestino vai funcionar, conhece o caminho para além mar, conhece os cinco continentes, domina vários idiomas mas não conhece os mecanismos internos da sua alma.Não sabe identificar se a sua alma está gripada, se está com dor de barriga, ou se está apenas anestesiada, pedindo para acordar e viver. A vida.
Mas ali estava alguém querendo saber como estava o seu coração e a sua alma, e outro, querendo saber se era nativa da terra, e ela já sofrendo por saber o que os outros dois pareciam não saber, mas Fernando Pessoa já sabia: “ falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.” Ignorar é um modo de saber.
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