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Categoria
 
Vida Vazia
 
Autor(a):
Lenon Mendes 
Email http://neuroniox.blogspot.com
Categoria:
Idéia Jovem
Data:  
Dia 24 de Jan/10
Contexto:
Crônica
 

Sempre pontual, às 7:30 da noite, entra no meu quarto uma enfermeira raquítica com um coquetel de calmantes para me darem um pouco de paz durante a minha induzida noite de sono. Mas dessa vez eu não os quero, pois sei que não me resta muito tempo e não quero passar o tempo que ainda tenho dormindo em um leito de hospital.

Prefiro sentir o câncer consumindo meus órgãos, mas ainda sim, sentir.

Quando soube que estava doente, só então fui perceber que eu não era um animal, ou até mesmo uma pedra e que dentro de mim havia um resquício de vida, que corria em minhas veias mesmo após uma vida inteira de tristezas e amarguras. Então, ao contrário do que se possa imaginar, eu me senti feliz por obter uma doença tão esmagadora, pois mesmo sendo tão grave, ela só atinge os vivos.

No dia em que o médico me deu o diagnóstico, enquanto eu olhava a sua expressão de pena, sentia vontade de gargalhar e saltitar ladeira abaixo, pois esta era a primeira vez em que alguém demonstrava pena por mim, fazendo-me sentir preciosa como uma taça de cristal ou um anjo de porcelana. Realmente foi um momento único.

Depois disso, saí do consultório, entrei em um shopping, tomei um sorvete e até me dei ao luxo de perambular pelas vitrines. Coisa que nunca tinha feito na minha vida, pois evitava sonhar com o que não podia ter.

Desde pequena ouvia minha mãe dizendo: “_ Deixe de babozeiras menina. Sonhar é um direito apenas de quem tem dinheiro!”. E então cresci com uma mente vazia de objetivos e sonhos. Casei sem amor, tive filhos por consequência e me tornei apenas um peso morto nesse mundo horrível, como um zumbi, com movimentos mecânicos e involuntários, cumprindo uma tarefa que para mim não tinha significado.

Vejo a minha vida como um tempo perdido, um desperdício da natureza e uma piada de Deus. Nunca senti o perfume de uma flor ou vi as cores de uma amoreira. Para mim o mundo é cinza, sem cheiro e sem gosto. Sentir prazer é algo que me foi negado. Em compensação foi me dado o vazio – um grande vazio. Acredito que até o meu choro seja sem gosto, meu sangue transparente e a minha fisionomia extremamente sem graça.

Quando perdi meus pais e meu marido, foram as únicas ocasiões em que expressei algum sentimento. Naqueles dias eu chorei, mas somente chorei porque devia chorar. Chorei porque todos diziam: “_Chorar irá fazer bem para você.”. E então tentei em vão, me tornar um pouco mais humana. Tanto é que ao ser abandonada em um asilo público por meus filhos, não derramei uma gota de lágrima, pois sabia o quanto era insuportável para eles me aguentarem. Sabia que o meu olhar transmitia uma tristeza sem sentido, e um sentimento de culpa difícil de se observar. Era como se eu fosse a responsável pelo holocausto dos judeus ou pela bomba de Hiroshima.

Mas eu nunca fui responsável por nada. Sempre fui apenas uma cobaia, ou alguém para preencher um espaço vazio abandonado nesse mundo. Talvez eu nem mereça contar a minha história, de tão insignificante que ela é, e por mais que eu me esforce para torná-la um pouco menos chata, ela ainda continuará insignificante.

Contudo, sozinha no leito de morte e pela primeira vez, me sentindo realmente triste, perto de um vazio maior que o meu, sinto a necessidade de me expressar, de viver tudo o que não vivi. Sinto a vontade de ter sonhos e anseios. De viajar e conhecer o mundo e principalmente, de amar. Ah, como eu queria ter realmente amado.

Agora tudo o que eu queria é voltar atrás e refazer tudo o que foi feito. Eu quero voltar a ser criança e correr pela chuva descalça, enquanto meus pais gritam pela janela cheios de preocupação. Quero montar em meu cavalo imaginário e correr por entre as árvores, cheia de coragem e determinação. Quero encontrar em príncipe encantado e me sentir amada e desejada, como se eu fosse a mulher mais bonita deste mundo.

Mas infelizmente, eu não posso voltar atrás. E o que fica na memória é uma infância reprimida por meus pais, os quais eram tão preconceituosos que não me deixavam viver, me limitando em todos os sentidos. Tudo o que eu queria era gargalhar, sem ser reprimida pela altura de minha risada. Era dançar e me divertir sem ser mutilada com os olhares de reprovação. Eu queria ir para festas, conversar com meus amigos e até me embebedar. Porém, ao contrário disso eu era obrigada a ficar em casa chorando em meu quarto.

Nunca escolhi roupas que realmente gostava, nunca cortei o meu cabelo da maneira que queria e nem sei ao certo se prefiro o bife mal passado ou bem passado, pois eu era um fantoche. E quando achei que estava livre, me vi presa novamente em um casamento sem futuro.

Apanhava quase que diariamente, não podia trabalhar e vivia uma vida entediante, limitada às tarefas domésticas. Eu sabia que não era estúpida, pois tinha completado meus estudos – uma das poucas insistências proveitosas de meu pais – porém sabia também que era fraca para conseguir mudar para uma situação melhor.

Sendo assim, desisti de sonhar e de sentir. Depois disso, tudo se resumiu a uma vida rápida, sem novidades e grandes acontecimentos. E se houve algum, eu estava tão sedada que deixei-o passar sem registrá-lo na minha memória.

Portanto não sei ao certo como vim parar aqui, só sei que o vazio que sinto por dentro, agora, também vejo por fora, nas paredes brancas deste quarto de hospital.

 

 


 
 
 
© 2009 - Ana Maria Ribas Bernardelli
 
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