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Categoria
 
A incerteza de ser ninguém
 
Autor(a):
Lenon Mendes 
Email lenon_mendes@msn.com
Categoria:
Idéia Jovem
Tema:
Sociedade
Data:  
Dia 30 de Mar/09
Contexto:
Com tanta manipulação da mídia e do capitalismo estamos ficando sem espaço e sem direito de sermos nós mesmos e este texto vem retratar esta cruel realidade.
 

 

Às vezes acho que não sou ninguém, às vezes acho que sou tudo. Mas na verdade nunca tenho certeza de nada.
 
Não sei se eu tenho gosto próprio, não sei se eu gosto do perfume que eu uso, não sei se eu gosto da comida que eu como e muito menos das pessoas com quem convivo.
 
Tudo é incerteza.
 
Acordo, tomo o café da manhã e ligo a TV. Na verdade eu acho que nem gosto de tomar café da manhã e muito menos de assistir o jornal de manhã. Talvez eu prefira dormir um pouco mais.
 
Vou para o meu trabalho de carro, no horário do almoço como em um restaurante perto do trabalho e sou bem remunerado. Trabalho em uma sala branca, no alto de um prédio, com uma enorme vidraça atrás da minha cadeira, rodeado por milhões de pessoas, mas tudo o que eu sinto é o ar gélido do ar condicionado e o barulho da cadeira de couro. Não sei ao certo se eu gosto do meu emprego. Pode ser que eu prefira um trabalho mais humano, menos remunerado e sem ar condicionado.
 
Ao chegar em casa às vezes beijo minha mulher e abraço meus filhos e às vezes simplesmente digo um boa noite.
 
Meus filhos estudam em um colégio bom e terei dinheiro suficiente para que eles tenham um grande futuro, mas talvez eles não precisem de um pai que dê dinheiro e presentes, mas de um pai que dê amor.
 
Às vezes eu tenho a vontade de queimar os meus cartões de crédito e tudo o que eu preciso é de um lugar sossegado no qual eu possa sentar, encostar a minha cabeça e ficar olhando para o teto.
 
Mas em outras situações as coisas mudam, principalmente quando entro em uma loja de informática. Nessa situação eu simplesmente não resisto e provavelmente não estaria contente nem com todo o dinheiro do mundo, mesmo sabendo que quase tudo o que eu compro é inútil.
 
Assisto jogos de futebol duas vezes por semana, programas de auditório aos finais de semana, filmes sempre que puder e de vez em quando tento ler um livro, que acaba sendo um fracasso, mas mesmo assim, talvez que eu prefira ler um livro a assistir TV.
 
Enfim, talvez esse seja eu. Um homem que pensa pouco, que age muito e que não faz a menor idéia de quem é, pois toda vez que eu tento ser eu mesmo eu vejo que por mais que o mundo esteja egoísta e individualizado, ainda não há espaço para eu ser eu mesmo.
 

 
 
 
© 2009 - Ana Maria Ribas Bernardelli
 
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